CASA DE BONECAS – Henrik Ibsen


Durante a vida toda, a maioria das mulheres será sempre tratada como um objeto, ou um simples brinquedo. Muito poucas vezes serão tratadas com amor, respeito, que é o que merecem.

E nessa história, Nora não é diferente da maioria das mulheres. Quando pequena, foi tratada como mais uma boneca cara que seu pai comprava-lhe para que brincasse na sua casa de bonecas.

Ao crescer e então casar-se como Helmer, nada disso mudou. Seu marido a tratava como um bibelô; enchendo-a de presentes e chamando-a sempre por diminutivos carinhosos como  “meu esquilinho” e “minha cotoviazinha”. Controlava o número de caramelos que ela podia comer, já que podiam estragar seus dentes.

Na véspera de natal, Nora recebeu a visita de sua amiga Cristina, que ficara viúva e que precisava trabalhar para se sustentar, já que o marido perdera toda a fortuna.  Aos olhos de Cristina, a amiga nunca fora mais do que uma garota mimada, fútil e que só preocupava-se com roupas e presentes. Nora revela então a amiga que, enquanto ficara com Helmer na Itália, para que ele se tratasse e se recuperasse de uma grave doença, ela teve que assumir uma dívida às escondidas, para custear toda a viagem, hospedagem e os remédios do marido. E que aos poucos, ela vinha saudando mensalmente a dívida, para que seu marido não descobrisse.

Krogstad, a quem Nora recorrera para realizar o empréstimo, também visitou-lhe na véspera de natal, mas com a intenção de confrontá-la, já que descobrira que Nora havia falsificado a assinatura do pai morto, para avalizar seu empréstimo. Ao descobrir, pela boca de Nora, que Cristina teria um lugar no banco e que ele seria demitido, ele chantageia Nora, prometendo contar tudo ao marido, caso ele fosse demitido.

Nora, em seu desespero, fala com o marido e tenta interceder em favor do seu algoz, mas Helmer é irredutível; afirmando que está mandando Krogstad embora, porque ele havia falsificado uma assinatura em documentos importantes; crime que ele achava hediondo e imperdoável e que não havia perdão ou justificativa para tal ato, mesmo ele sendo um ótimo funcionário.

Um novo encontro de Krogstad com Nora ocorre, porém, dessa vez,  Krogstad veio avisar-lhe que havia enviado uma carta endereçada a Helmer, onde expunha toda a gravidade do seu ato. Ele deixa bem claro que não estava interessado em dinheiro, mas em vingança e mesmo que Nora viesse a pagar-lhe tudo o que ainda lhe devia, não adiantava mais.

Os acontecimentos que se seguem foram tão marcantes, que só a partir daí Nora então despertou para a vida, que se descobriu mulher…

O resto, só lendo muito…

Mais um clássico da literatura universal, uma obra prima única, que nos leva a uma grande reflexão sobre o verdadeiro papel da mulher na sociedade, no casamento, no mundo…
O texto todo foi escrito em forma de peça de teatro, o que pode desagradar a alguns leitores, mas que em nenhum momento incomodou-me. Nota 10.

Alex André

A CABANA DO PAI TOMÁS – Harriet B. Stowe


A nossa história começa nos Estados Unidos, em 1852, pouco antes da Guerra da Secessão.

Pai Tomás e sua família eram escravos de Arthur Shelbi, no Kentucky. A vida na fazenda de Shelbi não era das piores, se comparada com a de outros escravos de fazendas vizinhas já que ele e sua família nunca foram mau-tratados ou espancados por seu dono. Mas Shelbi contrai tantas dívidas que é obrigado a vender parte de seus escravos, e entre eles está Pai Tomás.

Ao ser comprado pela família St. Clare, ele é obrigado a separar-se de sua esposa e filhos. Na nova propriedade, ele desperta o carinho da pequena Eva, filha do Sr. St. Clare. A menina torna-se um pequeno anjo na vida de Pai Tomás, trazendo um pouco de alegria para o bondoso escravo que sentia tanta saudade da sua família.

Entretanto, com a morte precoce de Eva e, posteriormente, a morte do Sr. St. Clare, sua esposa não vê outra saída que não seja vender o seu tão bondoso e prestativo escravo. E quem fica com Tomás é Simon Legree,  um alcoólatra muito conhecido pela violência com que trata seus escravos.

Tomás passa a ser surrado todos os dias, sem qualquer motivo. A violência dos castigos é tanta que acaba por…

O resto, só lendo muito…

Muito folclore cerca  esta obra magnífica até os dias de hoje.

  1. A autora teria escrito o livro não com intuito de conseguir a abolição da escravatura, mas apenas para conseguir dinheiro para comprar um vestido novo.
  2. O presidente Abrahan Lincoln teria acusado a autora de ser a responsável por deflagrar a Guerra da Secessão.
  3. Alguns espíritas também acreditam que a autora e seu marido eram médiuns e ela teria usado um espírito para ditar-lhe a história toda.
  4. O personagem Pai Tomás também não seria visto com bons olhos por líderes de movimentos negros, já que no livro era apenas um exemplo de humildade e submissão. 

Ganhei este livro em meu aniversário de doze anos e posso dizer que ele me marcou para sempre. Tive consciência, a partir dali, de que o racismo é a pior chaga da humanidade e passei a sonhar com uma sociedade igualitária. Nota 9.

Alex André

DESONRADOS e outros contos – Arlindo Gonçalves


DesonradosEncontrei este livro realmente por acaso, ao garimpar novidades literárias em algumas máquinas de livros do metrô. Acredito que tenha sido um dos melhores livros que li nos últimos tempos, senão o melhor. Existe um grande paralelo entre Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoievisky, como  o próprio Nelson de Oliveira veio a comentar em seu prefácio. 

Os dez contos contidos nesta obra magnífica tratam de uma São Paulo que vemos todos os dias, mas que muitas vezes fechamos os olhos e tentamos esquecer: a São Paulo do mau cheiro, do metrô lotado, da sujeira, da prostituição, do álcool, das drogas, dos crimes. 

Entretanto, no meio de tanta decepção, de tanta amargura, de tanto sofrimento, ainda há espaço para a sinceridade, amizade e ternura.

São histórias de pessoas que nunca acreditam em um futuro melhor, que são desprovidas de sonhos, já que a desgraça e a tragédia foi quem sempre acompanhou-as desde muito cedo.

Há também histórias de pessoas que tiveram uma vida ótima, que eram muito felizes, porém foram visitadas pela fatalidade e tiveram suas vidas tragicamente mudadas, transformando-as em seres miseráveis, só aguardando pela morte.

A história mais marcante é a de Eva, que ao perder o pai ainda muito pequena, começou a ser violentada pelo padrasto, até criar coragem e fugir para São Paulo. Contudo, sem muita opção, Eva resolve prostituir-se e acaba contraindo AIDS. E acaba por ficar grávida, para piorar ainda mais a sua triste situação. Suas amigas de profissão aconselham-na a abortar, mas ela teima e resolve ter a criança. Em um dos seus programas, Eva foi espancada quase até a morte por dois clientes sádicos e o que eles falaram enquanto batiam nela mudou o rumo da sua vida…

Como todas as histórias são interligadas, vou ficando por aqui, para não estragar a surpresa reservada para o final.

Não poderia deixar de reproduzir um poema que faz parte do conto “Manhã Nova”:

Encerram-se as últimas luzes da tarde

Comboios nos levam a lugares que nós nunca almejávamos estar

As pessoas um dia nos receberão sorridentes

Amados um dia seremos

Então, cuspiremos na comiseração que nos tornava desonrados

Felizes, então, seremos

Quem sabe?

Quem nos guiará?

Para além do amanhã…

Quem nos guiará?

Para além da manhã nova…

O livro todo é acompanhado por fotos em preto e branco do centro velho da cidade de São Paulo, tiradas pelo próprio Arlindo Gonçalves, como a que reproduzo abaixo; todas encaixam-se perfeitamente no contexto das histórias. 

Após o término da leitura meu interesse em conhecer mais obras deste autor só aumentou.

Lembrando a vocês que este é o segundo livro da Trilogia do Anonimato e pode ser lido separado dos outros, sem qualquer problema.

Livro digno de 5 estrelas!

Espero que vocês realmente tenham gostado.

Um xandylhão de beijos no coração de cada um de vocês!

Alex André (Xandy Xandy)

A Mulher de Trinta Anos – Honoré de Balzac


Estava com muitas saudades de todos vocês, querida Família Lendo Muito.

Trago-vos uma verdadeira obra-prima da literatura mundial: “A Mulher de Trinta Anos”, de Balzac. Espero que apreciem.

Nossa história começa  em abril de 1813, quando Júlia e seu pai acompanham o desfile das tropas do Imperador Napoleão, em frente ao Palácio das Tulherias.

Ao perceber o interesse da bela Júlia pelo coronel Vitor D’ Aiglemont, belo homem de trinta anos, forte, alto e com dotes físicos admiráveis, seu pai tenta explicar-lhe que, unindo-se com aquele homem, ela seria infeliz, visto que ele não passava de um homem rude, acostumado com o exército.

Mas mesmo contra a vontade de seu pai, ela acaba por se casar com Vitor, tornando-se por demais infeliz, já que o homem que ela admirava e queria para si, nada mais era do que um homem insensível, que não lhe dava carinho e era cheio de amantes.

Por causa da ameaça de invasão à França, por parte dos exércitos estrangeiros, Vitor confia então a segurança de sua esposa à sua tia, Marquesa de Listomeré, em Toraine. A Marquesa percebera que naquele casamento não existia amor e apieda-se da jovem, tornando-se sua confidente.

Lá, ela acaba por conhecer Artur, jovem inglês que havia se instaurado na região para curar-se de um problema pulmonar e fora proibido de sair da França, por ordens expressas de Napoleão, que havia ordenado a prisão de todos os ingleses, em retaliação à ruptura do Tratado de Amiens. Então aos poucos eles se afeiçoam um ao outro.

Mesmo após uma breve separação, eles ainda trocavam cartas e passaram a sentir um amor verdadeiro um pelo outro. Quando  Júlia começa a mostrar sinais de uma doença, Artur acaba por convencer seu marido a deixar que ele tomasse conta da saúde de sua esposa, visto que ele era um médico. A partir daí, os três passam o tempo juntos, e Júlia começa a recobrar sua saúde.

Ao saber que Vitor deixara sua jovem esposa para ir a uma caçada, Artur então  visita Júlia, com a intenção de matar-se, pois não aguentava mais ficar sem Júlia. A bela moça diz ao seu amante que tudo seria diferente se ela não fosse mãe, e que mesmo amando-o para sempre,ela não poderia abandonar seu lar, mas seria de agora em diante uma viúva com um marido vivo, ou seja, evitaria qualquer toque de seu marido, a quem se dedicaria até o fim dos dias. Os amantes são surpreendidos e Artur acaba por morrer naquela noite (não fica muito claro como).

No Castelo Saint-Lange, no final de 1820, Julia passa seus dias a esperar a morte. Entregue à uma espécie de depressão profunda, alimenta-se por obrigação e não se preocupa com Helena, sua filha. Mesmo com as visitas constantes do vigário, que estava disposto a ajudá-la a aceitar seu destino, a única coisa que lhe vem a cabeça é seu único amor.

Porém, tudo muda quando anos mais tarde ela conhece, em um baile, o jovem Conde Carlos de Vandenesse, que estava desiludido com a futilidade e mesquinhez das mulheres francesas. Ao serem apresentados, uma faísca incendiou o coração de Carlos e ele acabou por apaixonar-se pela bela senhora de trinta anos.

Júlia não esquecia seu único amor e confidenciava a Carlos que achava impossível uma pessoa amar duas vezes. Porém, aos poucos, ela acabou por apaixonar-se por aquele jovem fascinante.

Quando a felicidade parecia estar ao seu lado, ela será vitimada por uma grave tragédia, algo que iria marcar sua vida para sempre. E esta não será a única.

O resto, só lendo muito.

Balzac criou aqui de uma maneira filosófica, uma verdadeira ode ao feminismo, mas sem deixar de lado sua escola literária, o Realismo, a qual dedicou-se pela sua vida inteira. Até então, a mulher que tinha trinta anos era tida pela sociedade como apagada e sem atrativos.

Quem nunca leu nada deste autor fantástico, pode achar este livro meio sem sentido, já que ele escreveu os seis capítulos que o formam, primeiramente em forma de contos, e só depois reuniu-os em um único livro. Nota 9.

Um beijo no coração de todos.

Alex André

As Neves do Kilimanjaro e outros contos – Ernest Hemingway


Doze Histórias

NEVES DO KILIMANJARO, AS (LIVRO DE BOLSO)

 

Querida Família Lendo Muito, como vocês têm passado?

Desta vez, preparei-lhes uma resenha especial, já que Ernest Hemingway está entre os três maiores autores do século XX, ao lado de Jacky London e William Faulkner.

Para esta pequena coletânea, foram selecionados alguns dos melhores contos da época da sua juventude. Contos esses que falam sobre guerra, lutas de boxe, touradas, viagens, mas sem  nunca deixarem de lado a reflexão filosófica, política, e principalmente, humanitária das suas personagens. 

Vou destacar então dois contos, como sempre faço em resenhas deste tipo:

“As Neves do Kilimanjaro” é o conto principal desta pequena coletânea e também o mais longo do livro. Narra  a história de Harry, um escritor que encontra-se na África, com sua perna muito ferida e necessitando de cuidados especiais. Ao lado de Helen, sua esposa e enquanto aguarda um avião para socorrer-lhe no pé da montanha, ele acaba por fazer uma grande reflexão de sua vida,  de suas aventuras, de seus amores antigos, do porquê de ter fracassado como escritor. O ponto alto da história alto são as perdas de consciência de Harry que o levam a um estado de delírio, e a partir daí, ele começa então a reviver a única paixão verdadeira que teve na vida e  como abdicou dela para viajar para encontrar temas para suas histórias.

Se tiverem a oportunidade, assistam abaixo: “As neves do Kilimanjaro”, de 1952.Uma filme bem fiel ao conto, além de contar com Ava Gardner, Gregory Peck e Suzan Hayward em seu elenco.

 

Já em “A capital do Mundo”, o jovem Paco, garçom da pensão Luarca, na cidade de Madri, mantém o sonho de um dia ser um toureiro muito famoso, como aqueles que está acostumado a ver na pensão. Todavia, ao brincar de tourear com seu amigo Enrique, acaba por ser ferido mortalmente. Aqui Hemingway faz uma reflexão filosófica sobre o futuro da própria Madri, considerada um cidade muito bonita e moderna na época, mas que estava prestes a experimentar a guerra, e que já havia tido sua violência imortalizada por seus ilustres pintores do passado. 

 

Todos consideram como a obra-prima de Ernest Hemingway  o livro “Por Quem os Sinos Dobram”, escrito em 1940. Em 1954, ele recebeou o Prêmio Nobel, por seu livro “O Velho e o Mar”. Seu pai, que sofria de transtorno bipolar, suicidara-se por problemas financeiros, quando Hemingway ainda era bem jovem. O próprio Hemingway, vitimado pela mesma doença, tirou sua vida em 1961. Anos mais tarde, sua neta Margaux Hemingway, também suicidou-se por causa do transtorno bipolar.

Um livro excelente, que vale a pena ser lido com bastante calma. Pelo conjunto de todos os contos, merece uma nota 9.

Vou ficando por aqui.

Espero que tenham gostado de mais esta resenha.

Um beijo enorme no coração de cada um de vocês.

Alex André

 

 

 

A RUA DAS ILUSÕES PERDIDAS – John Steinbeck


“Cannery Row, em Monterrey, Califórnia, é um poema, um mau cheiro, um rangido, uma qualidade de luz, uma tonalidade, um hábito, uma nostalgia, um sonho.”

Nossa história começa com essa frase. Mas não é uma história qualquer, é a história sobre a vida de todos os moradores e frequentadores de Cannery Row, que não têm qualquer esperança de um futuro melhor.

É sobre a vida de Mack e seus amigos do Palace, que mesmo sendo muito  inteligentes e com grandes habilidades, preferem levar uma vida de vadiagem e pequenos golpes, mas mantendo sempre a amizade em primeiro lugar. Mesmo sendo um bando de desocupados, mostram todo o seu instinto paternal ao adotarem e deixarem a cadelinha Darling destruir o pouco que tinham, que seriam seus sapatos e botas…

Também é sobre a vida de Dora, dona de um prostíbulo que nomeara como “Restaurante Bandeira do Urso”. Ela e suas “meninas” fazem a alegria dos homens, mas também são perseguidas pelas esposas da região e muito exploradas pela prefeitura. Devem pagar o dobro de impostos e  fazer mais doações do que todos na cidade. Dora tem a educação e modos de uma dama e também trata as suas “meninas” com humanidade…

Mas, acima de tudo, é a história da vida de Doc, um cientista que trabalha e vive no laboratório de biologia de Connery Row. Doc trabalha coletando rãs e outros animais para outros institutos de pesquisas. Porém, Doc não é igual àquelas pessoas. Doc é respeitado por aquelas pessoas, pois sabe lidar e tratar com cada uma delas. 

O bando de Mack organiza uma festa de aniversário para o amigo Doc, para agradecê-lo e deixá-lo feliz. Ele convida a todos da rua para participarem da festa e cada uma daquelas pessoas sem perspectiva de um futuro melhor, se agarra na festa para homenagear a única pessoa que merece ser “diferente” de todos. Todavia, tudo desanda quando a festa não corre como o planejado e um grupo de bêbados invade a festa, pondo tudo a perder.

O resto, só lendo muto…

Neste livro, o autor não fala só da história de uma rua decadente, mas fala de filosofia da nossa própria vida e de tudo o que mais detestamos no ser humano, como é o caso de mesquinhez, egoísmo e ganância. Com certo toque de humor, ele consegue atenuar o choque da realidade de Cannery Row. 

Uma verdadeira obra-prima da literatura moderna. Steinbeck, ao contrário de Ernest Hemingway e William Faulkner, utiliza o que ficou conhecido como “o culto do simples”, já que em seus livros não existe nunca alguém para manipular nossas simpatias ou apontar-nos uma moral. Este é o seu maior sucesso literário, seguido de As Vinhas da Ira. O autor ganhou o prêmio Nobel em 1962.

Um livro nota 10.

Alex André

A FESTA NO CASTELO – Moacyr Scliar


Duas histórias são contadas paralelamente durante o livro todo: uma sobre a festa da nobreza italiana da Idade Média, em que os convidados do conde de V… encontram fartura em um jantar; e outra narrando a amizade entre um rapaz gaúcho e um sapateiro italiano. Elas parecem não ter nada em comum, mas no final é revelada a ligação entre elas.

A história do jantar da Nobreza desenrola-se aos poucos, com cuidado, narrando quem são os convidados do conde; como é o castelo onde ocorre a festa; quais são as atrações preparadas para o jantar.

A história principal se passa em Porto Alegre, nos anos de 1963 e 1964. Fernando, rapazote bonito e inteligente, nutre grande admiração por seu amigo Nicola, um velho sapateiro italiano; que além de gostar muito de ler, tem livros sobre a doutrina socialista por todos os cantos de sua casa.

O rapaz fica muito encantado com as histórias que o sapateiro conta a respeito da luta pelos direitos iguais de Marx, Robespierre, Bakinin. Começa a emprestar tantos livros do velho amigo e passa a tomar gosto pelo socialismo, tanto que acaba entrando para o grêmio da escola e até passa a escrever para o Jornal Estudantil matérias sobre o assunto.

Já seu pai, um gerente de loja descontente com sua própria sorte, engaja-se em uma luta sindical, cujo o único objetivo era receber alguma vantagem e vir a ser encaixado em algum cargo no sindicato. Ao descobrir o verdadeiro motivo da amizade entre Fernando e o Nicola, chega a surtar e expulsar o velho sapateiro de sua casa. 

Uma ideia então surge na cabeça de Nicola: criar a primeira fábrica de sapatos socialista do Brasil, que se chamaria “Fábrica do Povo”. Os empregados é que mandariam na fábrica, escolheriam seus turnos,etc. Ele pede o apoio de  Fernando para começar este projeto que seria o começo do fim da burguesia no Brasil.  Nicola compra então uma fábrica quase falida em Novo Hamburgo, e Fernando passa a negligenciar seus estudos e o grêmio estudantil para auxiliá-lo com tão impactante projeto.

Contudo, com o passar do tempo, ele começa a perceber que todas as coisas que seu velho amigo havia prometido pôr em prática não estão acontecendo. Nicola não cria nenhuma Fábrica do Povo; longe disso, o velho sapateiro começa a comportar-se como um capitalista como seu pai, algo que ele tanto combatia. Contrata um estilista para criar uma nova linha de calçados; coloca anúncio de lançamento no jornal e até contrata uma secretária, por quem se apaixona.

Mas, o que ocorre depois, só lendo muito…

 

As duas histórias foram muito bem construídas, com um leve toque de humor e muita genialidade por parte do autor. Um livro belíssimo, muito profundo. Recordou-me  “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell. Nota 10.

Alex André

A FILHA DO MILIONÁRIO – Dorothy Eden


Hoje vou falar de um livro esquecido ou desconhecido por muitos: A Filha do Milionário. Li este livro por indicação de minha amada mãe (que gosta de ler tanto quanto eu) e gostei muito da história.

Tudo começa quando o milionário emergente Harry Spencer decide que precisa casar-se com uma mulher de uma família tradicional de Nova York, para ganhar mais respeito perante à sociedade e ter um filho.

Harry acaba envolvendo-se com Louisa, a irmã mais nova de Mary Ellen Leyden, que  realmente aceita sua generosidade e ambos casam-se, para total desgosto de Mary Ellen.

Louisa ao ficar grávida, espanta-se com o fato de Harry Spencer já haver definido o nome da futura filha: Cristabel e inclusive seu apelido: Crissie. Crissie é super protegida e tratada com todas as regalias que o dinheiro pode comprar, sendo sempre a realização do sonho de seu pai.

Ao atingir sua maturidade, ela é convencida a casar-se com um aristocrata inglês, mas declina da ideia, pois no fundo o que ela deseja é casar-se por amor, não por conveniência social.

Sem o apoio dos pais, e sua imensa fortuna, ela casa-se com Moonkshood, que encobre um terrível segredo de todos, algo que ela ao descobrir, terá que guardar para si e jamais revelá-lo para ninguém.

O resto, só lendo muito…

Um livro realmente dramático, sensível e que demonstra as amarguras da vida e também que podemos juntar os cacos e recomeçar, mesmo que isso seja bem difícil. Merece ser lido por todos. Não posso dar menos de 8.

Alex André

 

 

 

O ASSASSINATO DO ANÃO… – Plínio Marcos


Este livro utiliza uma linguagem mais forte e chula, e até seu título completo é proibitivo para este blog.

A história toda se passa em tom de humor e suspense. Uma denúncia de maus-tratos envolvendo o leão do circo, se torna em uma grande investigação policial de assassinato ao anão Janjão do circo.

A mulher do prefeito, Dona Ciloca,  recebe uma denúncia de que cães e gatos estavam sendo dados de comer ao leão do circo. Ao contatar o delegado, o mesmo resolve ele mesmo tomar conta desta denúncia e vai ao circo com seu aparato policial. Lá o que verificam é um estado de pobreza do circo cigano Grand Circus Atlas. Platão, o leão estava sujo e sua jaula cheirava mal.

Mas o que chama a atenção de todos é um monte de roupas encontradas na jaula de Platão, que depois foram identificadas como sendo do Anão Janjão, sujeito arrogante e de certa forma desprezível, que todos gostariam de dar fim.

O que acontece a partir de então é um verdadeiro julgamento contra o povo cigano, que são tidos como ladrões de casas, de crianças, capazes de roubar bebês de colo, para torcer suas juntas e exibirem estas crianças mais tarde como contorcionistas. O povo, já com o veredicto de culpado, tenta atear fogo e apedrejar os funcionários do circo, porém são detidos pelos policiais, mais interessados em saber quem matou o anão, custe o que custar (chegam a usar de força bruta, para descobrirem o culpado).

O resto, só lendo muito…

Este livro nada mais é do que uma crítica social contra o modelo de investigação da época e a sociedade hipócrita, que tende sempre a procurar culpados nas camadas inferiores. E a genialidade de Plínio Marcos é tanta, que ele utilizou duas técnicas ao escrevê-lo: a literária e a teatral. Um livro nota 10.

Plínio Marcos, para quem não conhece, foi o maior, o mais premiado e mais proibido autor de teatro brasileiro. Não chegou a concluir nenhuma das várias escolas que cursou. Foi estivador, camelô, jogador de futebol, ator, escritor e jornalista. Suas peças de teatro foram um marco para a nova linguagem do teatro brasileiro. Nos anos 80, 90 vendia seus livros livremente perto do Edifício Copan, em São Paulo, onde meus pais várias vezes o viram, de chinelo de dedo, como uma pessoa do povo.

TRÊS CADÁVERES – Fialho de Almeida


“Três Cadáveres” é um livro muito profundo, que nos incita a divagar sobre o destino das mulheres de vida sofrida, enganadas por seus namorados e rejeitadas por suas famílias. O grau de perversidade e vilania é descrito de maneira bem direta nesta novela portuguesa.

O pano de fundo é a doença (tuberculose) de Marta, costureira sofrida, abandonada pelo amado e impedida de voltar para casa por seu velho pai desalmado. Seu irmão Miguel, ao ver a irmã em terrível estado de saúde, apieda-se dela e vai viver com ela. Mas com o passar do tempo, as dívidas com os medicamentos aumentam e ele é obrigado a pedir ajuda ao pai que nega qualquer tipo de auxílio ou perdão à filha.

Marta então é internada no hospital para aguardar sua morte. Com o passar dos dias ela vai definhando, mas sua beleza jamais se perde. Ao morrer, sensibiliza os médicos de tal forma, que os mesmos resolvem tratar eles mesmos de seu funeral, alugando um caixão e uma carruagem, conseguindo um padre e um  enterro simples em vala comum.

A partir de então, o autor faz uma reflexão sobre a vida, seus tormentos, a morte, a miséria, a escória, a desumanização da sociedade.

Fialho de Almeida foi um dos únicos representante do “Naturalismo da Miséria” em Portugal. Suas obras, ao contrário de Eça de Queirós, exploravam a miséria social e moral dos bairros portugueses. Seus contos são repletos de presença hiper-realista da vida e da morte e das chagas sociais.

A única nota negativa desta novela é o fato de ter sido escrita em português arcaico, o que dificulta muito a compreensão do texto. Nota 7.