A Metamorfose – Kafka


Resultado de imagem para capa livro a metamorfoseBoa noite, querida Família Lendo Muito!

Escolhemos mais um clássico universal para resenhar para vocês: A Metamorfose, de Franz Kafka.

Tentem imaginar a seguinte situação: vocês acordam de uma linda noite de sono e, ao mirarem-se no espelho, deparam-se não com o reflexo que estão acostumados a ver de si mesmos, mas sim com a imagem de um ser com ventre marrom, acentuadamente abaulado, com saliências arqueadas e inúmeras perninhas, ou seja, durante a noite vocês transformaram-se em uma autêntica barata!

Que desespero vocês não experimentariam diante de tal acontecimento, não é mesmo?

Pois isto aconteceu de fato com Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que vivia com seus pais e sua irmã em seu pequeno apartamento. Gregor era arrimo de família, ou seja, era ele que praticamente sustentava a casa, justamente por ser um funcionário eficiente e muito produtivo.

Todavia, agora que ele havia metamorfoseado-se em uma asquerosa barata,  sua família, envergonhada por ter que dividir o mesmo teto com semelhante criatura, o privara do contato com o mundo externo, obrigando-o assim a viver em um quarto poeirento e cheio de lixo!

Para piorar ainda mais as coisas, ele passou a depender da “bondade”  da sua irmã para alimentar-se…

Será que Gregor, de algum modo, conseguirá  reverter sua metamorfose e voltar a ser um producente homem, ou estará ele fadado a viver até o final dos seus dias como um desprezível e nauseabundo inseto?

O resto, só lendo muito!

Kafka conseguiu elaborar, de maneira brilhante, uma história convincente e muito tocante, que força-nos ao seguinte raciocínio: “Será que valemos pelo que somos ou apenas por aquilo que produzimos?”

A história é bem curta e pode ser lida em poucas horas.

Digno de 5 estrelas.

Esperamos que tenham gostado.

Um xandylhão de beijos no coração de cada um de vocês!

Alex André (Xandy Xandy)
&
Ana Paula

Anúncios

François – O Menino Abandonado – George Sand


Boa tarde, querida Família Lendo Muito!

Trago-vos, desta vez, a resenha de um verdadeiro clássico da literatura francesa: trata-se de François – O Menino Abandonado, da autora  George Sand.

Resultado de imagem para capa françois o menino abandonado

A história começa com uma apresentação relativamente longa, trazendo um diálogo entre o narrador e seu amigo R. Eles discutiam sobre a verdadeira arte e os seus benefícios e malefícios sobre o ser humano e também sobre a superioridade do homem do campo, frente ao homem da cidade.

No final da apresentação o narrador justifica então ao amigo R.  que François o Champi, a história que ele dali em diante passaria a contar-lhe, era de origem francesa  e que ele tentaria contá-la sem aumentar ou diminuir qualquer ponto; ele também justifica ao amigo o uso  do termo “champi” (criança abandonada nos campos), que estava em desuso e também não era de origem francesa, por achar mais adequado que bastardo.

Em certa manhã, a bela e caridosa Madeleine, esposa ainda muito jovem do moleiro Cadet Blanchet, seguia para a fonte, com o intuito de lavar suas roupas e, ao chegar lá, deparou-se com uma bela criança, sentada em sua tábua de lavar roupas, brincando solitária; a criança em questão encontrava-se muito mal vestida e lhe era totalmente desconhecida.

Ela começa então a conversar com o garotinho e fica sabendo que seu nome é François e que todos o conheciam por François, o champi, já que ele era órfão de pai e mãe e estava sendo criado por Zabelle (Isabelle Vigot), uma mulher de cinquenta anos que recebia uma pequena pensão do governo para cuidar do menino; eles estavam morando numa casinha alugada , que ficava nas dependências do moinho de Cormoeur, que pertencia ao marido de Madeleine.

A partir daquele instante estabelece-se uma relação de intenso amor entre o menino e a bela e bondosa Madeleine, que passa então a ajudar François e Zabelle com o dinheiro que recebia de suas costuras, desafiando seu próprio marido e, principalmente sua sogra desalmada, que simplesmente detestava o pequeno François, pelo simples fato dele ser um “champi”; no entender dela, todos os “champis” tornavam-se mais tarde vagabundos ou bandidos perigosos.

Com o dinheiro escasso e com medo de ser despejada, Zabelle aliou-se com a terrível sogra de Madeleine, que prometeu pagar-lhe seis meses de aluguel adiantado, desde que ela se livrasse de François de uma vez por todas, enviando-o ao orfanato. Contudo, enquanto esperava pela carruagem que levaria o menino ao seu terrível destino, o pobre garoto começou a chorar e gritar e ela desesperou-se e bateu fortemente em sua cabeça com uma pedra grande.

Por sorte, Madeleine passava perto dali naquele mesmo instante e, ouvindo os berros do pequeno François, tratou logo de correr para salvá-lo. Ela pegou todo o dinheiro que possuía e deu para Zabelle, que comprometeu-se a criar aquela pobre criança com todo o amor e carinho que lhe era merecido.

Daquele dia em diante, François passou a ter não apenas uma, mas duas mães para amá-lo e olhar por ele.

Mesmo assim, ele jamais deixaria de ser um champi”!

O resto, só lendo muito!

Uma história realmente emocionante, capaz de sensibilizar o coração mais empedernido; seu final é simplesmente de tirar o fôlego.

Para quem ainda não conhece esta autora magnífica: seu verdadeiro nome era Amandine Aurore Lucile Dupin; ela resolveu adotar o pseudônimo de George Sand para poder escrever com mais liberdade e também ser melhor aceita no meio literário da época.

Não posso deixar de parabenizar a Liliane Mendonça, por seu brilhante trabalho de tradução.

Digno de 5 estrelas

Espero que vocês realmente tenham gostado.

Um xandylhão de beijos no coração de cada um de vocês!

Alex André (Xandy Xandy)

DEPRESSÕES – Herta Müller


Resultado de imagem para livro depressões herta muller coleçãoBom dia, querida Família Lendo Muito!

Para iniciar as resenhas da semana, escolhi o livro Depressões, primeira obra da escritora alemã, nascida na Romênia Herta Müller, ganhadora do Prêmio Nobel da Literatura de 2009.

O livro é composto por quinze contos extremamente perturbadores, que falam das dificuldades encontradas pelas famílias para viverem no campo,  numa Romênia pós-guerra. A infância das crianças é retratada aqui de forma dura, brutal e muitas vezes agressiva; mesmo assim, há sinais de devaneios e até brincadeiras infantis.

Problemas como alcoolismo, adultério e espancamentos são traços marcantes da escrita da autora e são tratados como algo extremamente normal, chegando até a receber um certo lirismo por parte da mesma. 

Posso dizer que as histórias parecem repugnantes num primeiro momento, contudo, conforme avançamos na leitura, a desgraça é descrita de forma tão corriqueira que acabamos nos solidarizando com tamanho sofrimento vivido pelos personagens, por mais absurdo que isto possa parecer!!!

Escolhi dois contos para dar destaque:

1. O Discurso Fúnebre
Uma garota acompanha de perto o funeral do pai, que fora sempre uma figura imponente em casa. Terminado o enterro, alguns homens já muito alcoolizados, começam a narrar-lhe os terríveis pecados cometidos pelo seu progenitor, pecados que incluíam mortes de inocentes, adultério e até um caso terrível de estupro, que ocorrera durante a guerra. 

Para vingar-se daquele homem que fora tão terrível, os homens do vilarejo voltam-se para a pobre garota, condenando-a à morte.

2. Depressões
Esta narrativa, além de dar nome ao livro, é também a mais longa, ocupando quase metade do mesmo e narra a vida campestre de uma garotinha que mora com seus pais e avós, mas chega a ser tão insignificante que parece não existir de verdade.

Seu choro é repelido com tapas e surras dados pela mãe desalmada, que acredita que criança não deve chorar sem motivo. Ela escolhe como seu refúgio particular a “casinha”, uma latrina construída no terreno, usada por todos da família. Naquele lugar nauseabundo ela chora à vontade, sem qualquer culpa, e enquanto chora, ela também olha para baixo e, pela cor dos excrementos, ela consegue adivinhar quem esteve ali antes…

O resto, só lendo muito!

A leitura é bem tranquila e o ritmo torna-se bem acelerado devido à utilização de frases curtas pela autora.

Digno de 3 estrelas.

Espero que tenham gostado.

Um beijo grande no coração de cada um de vocês!

Alex André

 

 

Os meninos do banhado – Edith Brockes Tayer


“A saga dos moradores da Vila Prosperidade, pela visão
cheia de esperança de crianças e adolescentes
fincados sobre águas lodosas”

Resultado de imagem para capa os meninos do banhadoBoa tarde, querida Família Lendo Muito!

Para começar bem a semana de todos vocês, escolhi uma resenha de um livro extraordinário adquirido por acaso em uma das máquinas de livros do Metrô. Trata-se de “Os meninos do banhado“, da autora Edith Brockes Tayer.

A história começa quando Seu João pau-d’água teve seu barraco levado por uma grande ventania, fazendo com que ele e sua família, sem outro lugar para morar, acampassem na rua mesmo, em pleno inverno de temperaturas abaixo de zero.  Como grande folgado que era, Seu João só saía para procurar moradia de tarde, sem obter sucesso.

Seu Godói, patrão de Seu João, conseguiu convencê-lo a ir morar no banhado que ele estava planejando lotear há muito tempo; ele até facilitou o pagamento do lote e das madeiras para o barraco em muitas vezes.  Sem muitas opções e com medo de ser preso pela polícia por estar morando na rua, Seu João mudou com a família para o banhado que ele mesmo deu o nome de Vila Prosperidade.

Conforme os aluguéis subiam na região, outras pessoas foram mudando para o banhado, e barracos novos eram levantados todos os dias, inclusive em outros banhados ali perto. Os adultos levavam uma vida miserável, sem conforto algum, todavia, davam graças de não estarem na rua e ao menos terem um teto para morar.

A mulher de Seu João, doentia e muito fraca que era, não resistiu à friagem do lugar, falecendo logo após o primeiro mês em que haviam mudado. Bete, a filha de 8 anos, assumiu então os afazeres domésticos e os cuidados com os irmãos mais novos Sete (Setembrina) de 6 anos e Pulguinha (Pulquério) de apenas 2 anos, que de tão raquítico, parecia ainda uma criança de colo, mas com uma barriga avantajada de gente grande.

A falta de lenha de sempre fazia com que a pobre Bete roubasse madeiras soltas das cercas dos outros para cozinhar e aquecer os irmãos; até rãs congeladas ela pegou certa vez, pensando se tratarem de cascas de madeira da vizinha…

O banhado tinha uma única bica d’água, e dela não saía mais do que um fiozinho de água. Nela, todos pegavam água para beber ou lavar roupa, várias vezes ao dia.

Já os garotos dali preocupavam-se apenas com coisas de criança mesmo. E jogar bola era a principal delas. Muito envergonhados ficaram após amargarem uma goleada de 8×1 do Americano, time dos garotos do outro banhado.

Zé Gadeia, o líder dos garotos da Vila Prosperidade, tinha certeza que eles perderam aquele jogo porque o outro time estava todo uniformizado, com camisas e chuteiras de alta qualidade, enquanto muitos deles nem camiseta tinham e jogavam sempre descalços.

É então que Zé Gadeia resolve reunir a garotada propondo que eles se dividissem em grupos e trabalhassem para juntar dinheiro para equipar o time. Alguns trabalhariam de engraxate, como serventes de pedreiro, vendendo picolés, limpando quintais, pegando malas na cidade, pescando ou apanhando rãs. Todo o dinheiro arrecadado ficaria em posse do Velho, um senhor em que eles confiavam muito.

Mas nada saiu como planejado, pois o padre da paróquia já estava ajudando os garotos do outro banhado, por isso, não sobrou qualquer atividade para os meninos da Vila Prosperidade fazerem.

Certo dia, uma família de retirantes oriunda do interior do Maranhão, mudou-se para o banhado. Chiquinho, o filho deles, transformou-se logo na sensação da Vila Prosperidade, pois ele era um verdadeiro mestre na arte de fazer pandorgas (pipas). Em pouco tempo, a Vila Prosperidade virou um centro de fabricação de belas pipas; o negócio estava dando tão certo que eles começaram até a aceitar pedidos de outros estados.

Como nada vinha fácil para os meninos do banhado, num dia de muita ventania, Chiquinho e os outros garotos estavam empinando um bidê – outro modelo de pipa que eles estavam testando-, e o vento estava tão forte que acabou levando a pipa até um poste de luz. Ao tentar tirar o bidê dali, Chiquinho levou uma descarga e morreu eletrocutado na hora. Esta foi a primeira de muitas tragédias que viriam assolar a Vila Prosperidade.

Todavia, as decepções sucessivas jamais conseguiram afastar a esperança daqueles meninos do banhado!

O resto, só lendo muito.

Com uma mistura de O Cortiço, de Aluísio Azevedo e  Os Meninos da Rua Paulo, de Ferenc Molnár, a autora Edith Brockes Tayer conseguiu transformar a dramática e comovente história dos moradores do banhado da Vila Prosperidade em uma verdadeira obra-prima da literatura brasileira!

Leitura obrigatória para crianças e adultos de todas as idades.

Merece 5 estrelas.

Espero que todos tenham gostado.

Um beijo no coração de cada um de vocês!

Alex André

Contos Amargos – Alessandra Morales, Allana Machado, Bruno Catão, Paulo Vitor Mendonça


Boa tarde,  família Lendo Muito!

Como muitos de vocês já estão cansados de saber, sou um amante do gênero conto, seja de qualquer espécie, pois dou muito crédito para aqueles que, com tão poucas palavras, conseguem contar-nos uma história completa.

Trago-vos hoje a resenha de Contos Amargos –  livro que foi bem escrito por quatro jovens escritores, de estilos muito diferentes, que estão em busca de um lugar ao sol. Os temas abordados aqui são bem variados, como ingratidão, desforra, doenças (depressão pós-parto, câncer) e taras (estupro, pedofilia, incesto).

O sofrimento e a tragédia se fazem presentes desde o início, só que de forma bem comedida, e com o avanço da leitura o leitor depara-se com uma temática forte, impactante e até com o excesso de palavrões – em minha opinião, em alguns casos era dispensável!

Demorei para terminar este livro porque queria assimilar bem os estilos de cada um dos quatro autores. Para conseguir esse feito, eu li apenas um ou dois contos por dia. E o sentimentalismo da Alessandra Morales (minha querida Lelê, do Blog Tô Pensando em Ler) e o tom mais duro e áspero da jovem Allana Machado foram o que mais me cativaram. Tanto é que os dois contos selecionados aqui são delas:

1 – “Coisinha” – Allana Machado
Uma mulher com depressão pós parto resolve tirar a sua vida,  jogando-se no vão do metrô para não mais cuidar de seu filho “feio” e muito chorão. Ela desiste na última hora e resolve voltar para sua casa. Ela escuta da rua os berros do seu filho e resolve então acalmar aquela coisinha…

2 – “O Sorriso e a Ausência” – Alessandra Morales
Fabiana sentiu sempre uma enorme mágoa de sua mãe. Tinha vergonha de sua mãe ser pobre e desleixada, de voltar a pé para casa, vergonha da casa simples em que viviam. Só sentia mesmo saudades dos dias felizes que passava com sua tia Aurora, sua “segunda mãe”. Todavia, ao retornar para o funeral de sua mãe e abrir a mala colorida que ela tanto conhecia, deparou-se com uma fantasia de palhaço e um bilhete com um endereço que a levou até um hospital!  Ao entrar ali ela percebeu quem era sua verdadeira mãe e o que ela fazia naquele lugar…

O resto, só lendo muito!!!

Vou ficar esperando ansiosamente mais publicações deste “quarteto fantástico”, pois realmente adorei o livro e sei que todos são muito talentosos (uns mais e outros menos) e com um futuro brilhante pela frente. Nota 10.

Um beijo no coração de cada um de vocês!

Alex André

O Cortiço – Aluísio Azevedo


Com essa postagem, eu e minha “irmãzinha espiritual” Ana Beatriz damos início a um projeto antigo nosso, que vem desde antes de criamos o blog. Trata-se da Cia. de Leitura Lendo Muito. Nosso objetivo  é discutirmos, ao final de cada leitura, o que cada um achou do livro, de quais personagens cada um gostou ou não gostou e fazermos uma postagem única com nossas resenhas separadas.

E para dar o pontapé inicial neste projeto, escolhemos  “O Cortiço”, um clássico da literatura brasileira e também mundial, que vai cair em vários vestibulares deste ano e que muita gente ainda tem um certo receio, não é mesmo? 

Se alguém tiver interesse em participar da Cia. de Leitura Lendo Muito, é só nos avisar.

Um beijo no coração de todos!

Alex André


Mais do que um clássico dos vestibulares, a obra de Aluísio Azevedo é também um clássico do Naturalismo no Brasil, sendo, por ambos os motivos, comumente pedido nas escolas, em especial durante o Ensino Médio.
Eu mesma apenas comprei o livro por conta dos deveres escolares, sem esperar muito de uma história que narrava, evidentemente, o dia a dia dos moradores de um cortiço.
Embora possa parecer maçante e tedioso á primeira vista, confesso ter me surpreendido positivamente com o livro.
Isso porque, divergindo do que eu imaginava, a obra não é puramente cotidiana e enfadonha. Longe disso, nos mostra diversas aventuras ocorridas com os variados personagens que compõem a trama.
Graças a isso podemos ver na história paixão, adultério, disputa, ganância, inveja, entre outras coisas. Além de abordar temas como a escravidão e o papel da mulher na atual sociedade descrita. Tudo isso tendo o modo de vida simples dos moradores de tal local precário como pano de fundo, o que não deixa de contrastar com a nobre residência dos familiares de Miranda. Este, por sua vez, nem por isso possui a estrutura familiar e a vida perfeitas que costuma exibir.
Diferente do que pode-se imaginar, a linguagem não é muito complexa. Apesar de, de fato, possuir algumas palavras antiquadas e incomuns, não há nada que não possa ser resolvido com a ajuda de um dicionário ou que possa ser facilmente interpretado de acordo com o contexto.
Mesmo que a quantidade de personagens seja realmente grande, logo você se acostuma com eles, fazendo com que aprender seus nomes seja um processo relativamente fácil, inclusive alguns deles são adoráveis, apesar dos inúmeros defeitos e falhas que todos possuem. Por tudo que foi dito até aqui, minha nota para “O Cortiço” é 8.

By Ana Beatriz


Nossa história começa começa em pleno Rio de Janeiro do século XIX, onde João Romão, português de nascimento e avaro de coração, resolve montar uma vila de casas para alugar: a Estalagem São Romão, que nada mais eram do que um cortiço. Cortiço isso que incomodava Miranda, seu patrício rico que vivia com a família ao lado dali e convivia com a gritaria e balburdia do lugar.

Para não estragar as surpresas do livro eu não vou me aprofundar  na história, pois quero que todos leiam este expoente do Naturalismo brasileiro. Só vou fazer um pequeno panorama do que vão encontrar.

Situações mais inusitadas são vividas naquele lugar onde pessoas comuns moravam: brigas, fofocas de todo o tipo entre as mulheres que lavam suas roupas juntas, homossexualismo, traições e agressões eram frequentes ali.

O destaque dessa brilhante história não é a Rita Baiana que tinha prazer em ser disputada por dois homens e nem Dona Isabel, que controlava a chegada da menstruação da filha Pombinha como alguém que espera ganhar ansiosamente o prêmio principal da loteria. Nem tampouco o próprio João Romão, que vivia uma vida de privações, apesar de ganhar tanto dinheiro com seus golpes.

O cortiço ocupa este lugar, pois é motivo de orgulho e respeito para aquelas pessoas que ali viviam. Tinha coração e vida própria e alimentava-se das intrigas, brigas e lágrimas daquelas pessoas…

O resto, só lendo muito…

Um livro esplêndido, de fácil compreensão, apesar da linguagem um pouco mais rebuscada. Foi escrito no século XIX, mas cita problemas que algumas pessoas que vivem em conjuntos habitacionais presenciam até hoje: brigas entre vizinhos, discussões, agressões entre casais, etc. Dou nota 9.

By Alex André

 

 

 

 

É PROIBIDO COMER A GRAMA – Wander Piroli


Jà conversei com algumas pessoas que não gostam de comprar livros em máquinas, pois acham que só tem “porcarias” lá. Respeito a opinião de cada um, mas também tenho o direito de discordar, pois sempre podemos encontrar um livro bem interessante ali e acessível ao nosso orçamento.

E foi procurando por novos “diamantes literários”, que eu acabei deparando-me com “É proibido comer a Grama”, uma  coletânea de 18 contos fortes, que foi escrita brilhantemente por Wander Piroli, premiado autor  mineiro, que infelizmente já nos deixou, em 2006.

Os contos de Wander Piroli retratam uma Grande Belo Horizonte, violenta, cruel, que não se difere em nada de São Paulo, Recife, Salvador, ou de qualquer outra cidade de nosso país tão assolado pela violência.

Seu mundo não é um mundo ficcional, cor de rosa, mas sim um mundo negro, real, onde o vermelho impera – o vermelho do sangue que escorre das vítimas. Os personagens de Wander Piroli são fortes, bem construídos. E como na nossa vida, estão sempre matando por nada ou sendo mortos por coisas pequenas, estúpidas.

São histórias como a do professor Thales, que ao ser assaltado à mão armada teve ir à delegacia para registrar queixa, e então ficar na enorme “fila dos assaltados”. Ali, ele teve contato com várias vítimas que também tinham sofrido assalto mas haviam sido espancadas e violentadas também.

A partir de então, ele acredita ser um  felizardo, já que não sofrera nenhuma agressão, apenas “limparam” tudo o que tinha, inclusive seu velho Volks (Fusca) e as provas de escola. Ao sair da delegacia, seu plano era voltar a pé para casa, já que não tinha qualquer dinheiro e nem documentos. Tudo parecia bem para o nosso “sortudo” professor Thales, até que algo acontece e leva o professor a repensar seus conceitos…


São como as de Elídio, que ao chegar ao hospital com o filho pequeno que botava sangue sem parar pelo nariz, porém nunca ser atendido, reclama então com a enfermeira e recebe a informação que os médicos estão fazendo a sua refeição e não podem ser interrompidos. Elídio acaba por tomar uma decisão que irá mudar a sua vida para a sempre…

Poderia ser até mesmo a minha própria história ou a de qualquer um, já que ninguém hoje está livre da violência.

Um livro espetacular, que só pela capa, escolha do papel e diagramação já atrai qualquer um. Por isso, minha nota não poderia ser outra senão 10.

Espero que tenham gostado!

Um grande beijo.

Alex André

 

 

AFOGADO – Junot Díaz



Apesar dos inúmeros livros que eu compro em sebos, livrarias e lojas online, garimpar livros pelas máquinas do Metrô tem se tornado uma grande mania. E assim venho encontrando ótimos livros, como é o caso de “Afogado”, do jovem e talentoso escritor dominicano Junot Díaz.

Neste livro, temos histórias do lado negro de pessoas sem qualquer futuro: vadios, viciados em drogas, bêbados, imigrantes ilegais.

São 14 contos muito bem construídos, com personagens bem fortes, marcantes e que nos trazem  uma grande reflexão, já que podemos nos identificar muitas vezes com sua dor.

Um dos contos que mais chama a atenção é “Ysrael”, que narra a história de dois irmãos: Yunior e Rafael, que vão passar férias em casa de seus tios, no interior da República Dominicana. Eles acabam então por conhecer o garoto Ysrael, que usa sempre uma máscara para esconder a sua face, já que quando bebê, um porco invadira sua casa e desfigurara completamente o seu rosto. Os dois irmãos acabam usando de uma desculpa para aproximarem-se de Ysrael, porém apenas com a curiosidade de ver o rosto por baixo da máscara. A violência selará o final desta história…

“Aurora” narra o relacionamento bem intempestivo de um jovem com uma garota chamada “Aurora”, que além de viciada em drogas, também é muito ciumenta. O casal é extremamente desajustado e violento no seu relacionamento. Este é o conto mais longo e o mais chocante, com toda a certeza.

 A maioria das histórias está interligada, mostrando uma evolução na vida das personagens, o que é o ponto alto deste livro. O ponto negativo fica para a tradução, que usou muito espanhol e portunhol. Mesmo com um glossário no final do livro, não foram incluídas todas as expressões, gerando uma certa dificuldade de compreensão em alguns momentos da leitura. Nota 8.

Alex André

CASA DE BONECAS – Henrik Ibsen


Durante a vida toda, a maioria das mulheres será sempre tratada como um objeto, ou um simples brinquedo. Muito poucas vezes serão tratadas com amor, respeito, que é o que merecem.

E nessa história, Nora não é diferente da maioria das mulheres. Quando pequena, foi tratada como mais uma boneca cara que seu pai comprava-lhe para que brincasse na sua casa de bonecas.

Ao crescer e então casar-se como Helmer, nada disso mudou. Seu marido a tratava como um bibelô; enchendo-a de presentes e chamando-a sempre por diminutivos carinhosos como  “meu esquilinho” e “minha cotoviazinha”. Controlava o número de caramelos que ela podia comer, já que podiam estragar seus dentes.

Na véspera de natal, Nora recebeu a visita de sua amiga Cristina, que ficara viúva e que precisava trabalhar para se sustentar, já que o marido perdera toda a fortuna.  Aos olhos de Cristina, a amiga nunca fora mais do que uma garota mimada, fútil e que só preocupava-se com roupas e presentes. Nora revela então a amiga que, enquanto ficara com Helmer na Itália, para que ele se tratasse e se recuperasse de uma grave doença, ela teve que assumir uma dívida às escondidas, para custear toda a viagem, hospedagem e os remédios do marido. E que aos poucos, ela vinha saudando mensalmente a dívida, para que seu marido não descobrisse.

Krogstad, a quem Nora recorrera para realizar o empréstimo, também visitou-lhe na véspera de natal, mas com a intenção de confrontá-la, já que descobrira que Nora havia falsificado a assinatura do pai morto, para avalizar seu empréstimo. Ao descobrir, pela boca de Nora, que Cristina teria um lugar no banco e que ele seria demitido, ele chantageia Nora, prometendo contar tudo ao marido, caso ele fosse demitido.

Nora, em seu desespero, fala com o marido e tenta interceder em favor do seu algoz, mas Helmer é irredutível; afirmando que está mandando Krogstad embora, porque ele havia falsificado uma assinatura em documentos importantes; crime que ele achava hediondo e imperdoável e que não havia perdão ou justificativa para tal ato, mesmo ele sendo um ótimo funcionário.

Um novo encontro de Krogstad com Nora ocorre, porém, dessa vez,  Krogstad veio avisar-lhe que havia enviado uma carta endereçada a Helmer, onde expunha toda a gravidade do seu ato. Ele deixa bem claro que não estava interessado em dinheiro, mas em vingança e mesmo que Nora viesse a pagar-lhe tudo o que ainda lhe devia, não adiantava mais.

Os acontecimentos que se seguem foram tão marcantes, que só a partir daí Nora então despertou para a vida, que se descobriu mulher…

O resto, só lendo muito…

Mais um clássico da literatura universal, uma obra prima única, que nos leva a uma grande reflexão sobre o verdadeiro papel da mulher na sociedade, no casamento, no mundo…
O texto todo foi escrito em forma de peça de teatro, o que pode desagradar a alguns leitores, mas que em nenhum momento incomodou-me. Nota 10.

Alex André

A CABANA DO PAI TOMÁS – Harriet B. Stowe


A nossa história começa nos Estados Unidos, em 1852, pouco antes da Guerra da Secessão.

Pai Tomás e sua família eram escravos de Arthur Shelbi, no Kentucky. A vida na fazenda de Shelbi não era das piores, se comparada com a de outros escravos de fazendas vizinhas já que ele e sua família nunca foram mau-tratados ou espancados por seu dono. Mas Shelbi contrai tantas dívidas que é obrigado a vender parte de seus escravos, e entre eles está Pai Tomás.

Ao ser comprado pela família St. Clare, ele é obrigado a separar-se de sua esposa e filhos. Na nova propriedade, ele desperta o carinho da pequena Eva, filha do Sr. St. Clare. A menina torna-se um pequeno anjo na vida de Pai Tomás, trazendo um pouco de alegria para o bondoso escravo que sentia tanta saudade da sua família.

Entretanto, com a morte precoce de Eva e, posteriormente, a morte do Sr. St. Clare, sua esposa não vê outra saída que não seja vender o seu tão bondoso e prestativo escravo. E quem fica com Tomás é Simon Legree,  um alcoólatra muito conhecido pela violência com que trata seus escravos.

Tomás passa a ser surrado todos os dias, sem qualquer motivo. A violência dos castigos é tanta que acaba por…

O resto, só lendo muito…

Muito folclore cerca  esta obra magnífica até os dias de hoje.

  1. A autora teria escrito o livro não com intuito de conseguir a abolição da escravatura, mas apenas para conseguir dinheiro para comprar um vestido novo.
  2. O presidente Abrahan Lincoln teria acusado a autora de ser a responsável por deflagrar a Guerra da Secessão.
  3. Alguns espíritas também acreditam que a autora e seu marido eram médiuns e ela teria usado um espírito para ditar-lhe a história toda.
  4. O personagem Pai Tomás também não seria visto com bons olhos por líderes de movimentos negros, já que no livro era apenas um exemplo de humildade e submissão. 

Ganhei este livro em meu aniversário de doze anos e posso dizer que ele me marcou para sempre. Tive consciência, a partir dali, de que o racismo é a pior chaga da humanidade e passei a sonhar com uma sociedade igualitária. Nota 9.

Alex André