Contos Amargos – Alessandra Morales, Allana Machado, Bruno Catão, Paulo Vitor Mendonça


Boa tarde,  família Lendo Muito!

Como muitos de vocês já estão cansados de saber, sou um amante do gênero conto, seja de qualquer espécie, pois dou muito crédito para aqueles que, com tão poucas palavras, conseguem contar-nos uma história completa.

Trago-vos hoje a resenha de Contos Amargos –  livro que foi bem escrito por quatro jovens escritores, de estilos muito diferentes, que estão em busca de um lugar ao sol. Os temas abordados aqui são bem variados, como ingratidão, desforra, doenças (depressão pós-parto, câncer) e taras (estupro, pedofilia, incesto).

O sofrimento e a tragédia se fazem presentes desde o início, só que de forma bem comedida, e com o avanço da leitura o leitor depara-se com uma temática forte, impactante e até com o excesso de palavrões – em minha opinião, em alguns casos era dispensável!

Demorei para terminar este livro porque queria assimilar bem os estilos de cada um dos quatro autores. Para conseguir esse feito, eu li apenas um ou dois contos por dia. E o sentimentalismo da Alessandra Morales (minha querida Lelê, do Blog Tô Pensando em Ler) e o tom mais duro e áspero da jovem Allana Machado foram o que mais me cativaram. Tanto é que os dois contos selecionados aqui são delas:

1 – “Coisinha” – Allana Machado
Uma mulher com depressão pós parto resolve tirar a sua vida,  jogando-se no vão do metrô para não mais cuidar de seu filho “feio” e muito chorão. Ela desiste na última hora e resolve voltar para sua casa. Ela escuta da rua os berros do seu filho e resolve então acalmar aquela coisinha…

2 – “O Sorriso e a Ausência” – Alessandra Morales
Fabiana sentiu sempre uma enorme mágoa de sua mãe. Tinha vergonha de sua mãe ser pobre e desleixada, de voltar a pé para casa, vergonha da casa simples em que viviam. Só sentia mesmo saudades dos dias felizes que passava com sua tia Aurora, sua “segunda mãe”. Todavia, ao retornar para o funeral de sua mãe e abrir a mala colorida que ela tanto conhecia, deparou-se com uma fantasia de palhaço e um bilhete com um endereço que a levou até um hospital!  Ao entrar ali ela percebeu quem era sua verdadeira mãe e o que ela fazia naquele lugar…

O resto, só lendo muito!!!

Vou ficar esperando ansiosamente mais publicações deste “quarteto fantástico”, pois realmente adorei o livro e sei que todos são muito talentosos (uns mais e outros menos) e com um futuro brilhante pela frente. Nota 10.

Um beijo no coração de cada um de vocês!

Alex André

O Cortiço – Aluísio Azevedo


Com essa postagem, eu e minha “irmãzinha espiritual” Ana Beatriz damos início a um projeto antigo nosso, que vem desde antes de criamos o blog. Trata-se da Cia. de Leitura Lendo Muito. Nosso objetivo  é discutirmos, ao final de cada leitura, o que cada um achou do livro, de quais personagens cada um gostou ou não gostou e fazermos uma postagem única com nossas resenhas separadas.

E para dar o pontapé inicial neste projeto, escolhemos  “O Cortiço”, um clássico da literatura brasileira e também mundial, que vai cair em vários vestibulares deste ano e que muita gente ainda tem um certo receio, não é mesmo? 

Se alguém tiver interesse em participar da Cia. de Leitura Lendo Muito, é só nos avisar.

Um beijo no coração de todos!

Alex André


Mais do que um clássico dos vestibulares, a obra de Aluísio Azevedo é também um clássico do Naturalismo no Brasil, sendo, por ambos os motivos, comumente pedido nas escolas, em especial durante o Ensino Médio.
Eu mesma apenas comprei o livro por conta dos deveres escolares, sem esperar muito de uma história que narrava, evidentemente, o dia a dia dos moradores de um cortiço.
Embora possa parecer maçante e tedioso á primeira vista, confesso ter me surpreendido positivamente com o livro.
Isso porque, divergindo do que eu imaginava, a obra não é puramente cotidiana e enfadonha. Longe disso, nos mostra diversas aventuras ocorridas com os variados personagens que compõem a trama.
Graças a isso podemos ver na história paixão, adultério, disputa, ganância, inveja, entre outras coisas. Além de abordar temas como a escravidão e o papel da mulher na atual sociedade descrita. Tudo isso tendo o modo de vida simples dos moradores de tal local precário como pano de fundo, o que não deixa de contrastar com a nobre residência dos familiares de Miranda. Este, por sua vez, nem por isso possui a estrutura familiar e a vida perfeitas que costuma exibir.
Diferente do que pode-se imaginar, a linguagem não é muito complexa. Apesar de, de fato, possuir algumas palavras antiquadas e incomuns, não há nada que não possa ser resolvido com a ajuda de um dicionário ou que possa ser facilmente interpretado de acordo com o contexto.
Mesmo que a quantidade de personagens seja realmente grande, logo você se acostuma com eles, fazendo com que aprender seus nomes seja um processo relativamente fácil, inclusive alguns deles são adoráveis, apesar dos inúmeros defeitos e falhas que todos possuem. Por tudo que foi dito até aqui, minha nota para “O Cortiço” é 8.

By Ana Beatriz


Nossa história começa começa em pleno Rio de Janeiro do século XIX, onde João Romão, português de nascimento e avaro de coração, resolve montar uma vila de casas para alugar: a Estalagem São Romão, que nada mais eram do que um cortiço. Cortiço isso que incomodava Miranda, seu patrício rico que vivia com a família ao lado dali e convivia com a gritaria e balburdia do lugar.

Para não estragar as surpresas do livro eu não vou me aprofundar  na história, pois quero que todos leiam este expoente do Naturalismo brasileiro. Só vou fazer um pequeno panorama do que vão encontrar.

Situações mais inusitadas são vividas naquele lugar onde pessoas comuns moravam: brigas, fofocas de todo o tipo entre as mulheres que lavam suas roupas juntas, homossexualismo, traições e agressões eram frequentes ali.

O destaque dessa brilhante história não é a Rita Baiana que tinha prazer em ser disputada por dois homens e nem Dona Isabel, que controlava a chegada da menstruação da filha Pombinha como alguém que espera ganhar ansiosamente o prêmio principal da loteria. Nem tampouco o próprio João Romão, que vivia uma vida de privações, apesar de ganhar tanto dinheiro com seus golpes.

O cortiço ocupa este lugar, pois é motivo de orgulho e respeito para aquelas pessoas que ali viviam. Tinha coração e vida própria e alimentava-se das intrigas, brigas e lágrimas daquelas pessoas…

O resto, só lendo muito…

Um livro esplêndido, de fácil compreensão, apesar da linguagem um pouco mais rebuscada. Foi escrito no século XIX, mas cita problemas que algumas pessoas que vivem em conjuntos habitacionais presenciam até hoje: brigas entre vizinhos, discussões, agressões entre casais, etc. Dou nota 9.

By Alex André

 

 

 

 

É PROIBIDO COMER A GRAMA – Wander Piroli


Jà conversei com algumas pessoas que não gostam de comprar livros em máquinas, pois acham que só tem “porcarias” lá. Respeito a opinião de cada um, mas também tenho o direito de discordar, pois sempre podemos encontrar um livro bem interessante ali e acessível ao nosso orçamento.

E foi procurando por novos “diamantes literários”, que eu acabei deparando-me com “É proibido comer a Grama”, uma  coletânea de 18 contos fortes, que foi escrita brilhantemente por Wander Piroli, premiado autor  mineiro, que infelizmente já nos deixou, em 2006.

Os contos de Wander Piroli retratam uma Grande Belo Horizonte, violenta, cruel, que não se difere em nada de São Paulo, Recife, Salvador, ou de qualquer outra cidade de nosso país tão assolado pela violência.

Seu mundo não é um mundo ficcional, cor de rosa, mas sim um mundo negro, real, onde o vermelho impera – o vermelho do sangue que escorre das vítimas. Os personagens de Wander Piroli são fortes, bem construídos. E como na nossa vida, estão sempre matando por nada ou sendo mortos por coisas pequenas, estúpidas.

São histórias como a do professor Thales, que ao ser assaltado à mão armada teve ir à delegacia para registrar queixa, e então ficar na enorme “fila dos assaltados”. Ali, ele teve contato com várias vítimas que também tinham sofrido assalto mas haviam sido espancadas e violentadas também.

A partir de então, ele acredita ser um  felizardo, já que não sofrera nenhuma agressão, apenas “limparam” tudo o que tinha, inclusive seu velho Volks (Fusca) e as provas de escola. Ao sair da delegacia, seu plano era voltar a pé para casa, já que não tinha qualquer dinheiro e nem documentos. Tudo parecia bem para o nosso “sortudo” professor Thales, até que algo acontece e leva o professor a repensar seus conceitos…


São como as de Elídio, que ao chegar ao hospital com o filho pequeno que botava sangue sem parar pelo nariz, porém nunca ser atendido, reclama então com a enfermeira e recebe a informação que os médicos estão fazendo a sua refeição e não podem ser interrompidos. Elídio acaba por tomar uma decisão que irá mudar a sua vida para a sempre…

Poderia ser até mesmo a minha própria história ou a de qualquer um, já que ninguém hoje está livre da violência.

Um livro espetacular, que só pela capa, escolha do papel e diagramação já atrai qualquer um. Por isso, minha nota não poderia ser outra senão 10.

Espero que tenham gostado!

Um grande beijo.

Alex André

 

 

AFOGADO – Junot Díaz



Apesar dos inúmeros livros que eu compro em sebos, livrarias e lojas online, garimpar livros pelas máquinas do Metrô tem se tornado uma grande mania. E assim venho encontrando ótimos livros, como é o caso de “Afogado”, do jovem e talentoso escritor dominicano Junot Díaz.

Neste livro, temos histórias do lado negro de pessoas sem qualquer futuro: vadios, viciados em drogas, bêbados, imigrantes ilegais.

São 14 contos muito bem construídos, com personagens bem fortes, marcantes e que nos trazem  uma grande reflexão, já que podemos nos identificar muitas vezes com sua dor.

Um dos contos que mais chama a atenção é “Ysrael”, que narra a história de dois irmãos: Yunior e Rafael, que vão passar férias em casa de seus tios, no interior da República Dominicana. Eles acabam então por conhecer o garoto Ysrael, que usa sempre uma máscara para esconder a sua face, já que quando bebê, um porco invadira sua casa e desfigurara completamente o seu rosto. Os dois irmãos acabam usando de uma desculpa para aproximarem-se de Ysrael, porém apenas com a curiosidade de ver o rosto por baixo da máscara. A violência selará o final desta história…

“Aurora” narra o relacionamento bem intempestivo de um jovem com uma garota chamada “Aurora”, que além de viciada em drogas, também é muito ciumenta. O casal é extremamente desajustado e violento no seu relacionamento. Este é o conto mais longo e o mais chocante, com toda a certeza.

 A maioria das histórias está interligada, mostrando uma evolução na vida das personagens, o que é o ponto alto deste livro. O ponto negativo fica para a tradução, que usou muito espanhol e portunhol. Mesmo com um glossário no final do livro, não foram incluídas todas as expressões, gerando uma certa dificuldade de compreensão em alguns momentos da leitura. Nota 8.

Alex André

CASA DE BONECAS – Henrik Ibsen


Durante a vida toda, a maioria das mulheres será sempre tratada como um objeto, ou um simples brinquedo. Muito poucas vezes serão tratadas com amor, respeito, que é o que merecem.

E nessa história, Nora não é diferente da maioria das mulheres. Quando pequena, foi tratada como mais uma boneca cara que seu pai comprava-lhe para que brincasse na sua casa de bonecas.

Ao crescer e então casar-se como Helmer, nada disso mudou. Seu marido a tratava como um bibelô; enchendo-a de presentes e chamando-a sempre por diminutivos carinhosos como  “meu esquilinho” e “minha cotoviazinha”. Controlava o número de caramelos que ela podia comer, já que podiam estragar seus dentes.

Na véspera de natal, Nora recebeu a visita de sua amiga Cristina, que ficara viúva e que precisava trabalhar para se sustentar, já que o marido perdera toda a fortuna.  Aos olhos de Cristina, a amiga nunca fora mais do que uma garota mimada, fútil e que só preocupava-se com roupas e presentes. Nora revela então a amiga que, enquanto ficara com Helmer na Itália, para que ele se tratasse e se recuperasse de uma grave doença, ela teve que assumir uma dívida às escondidas, para custear toda a viagem, hospedagem e os remédios do marido. E que aos poucos, ela vinha saudando mensalmente a dívida, para que seu marido não descobrisse.

Krogstad, a quem Nora recorrera para realizar o empréstimo, também visitou-lhe na véspera de natal, mas com a intenção de confrontá-la, já que descobrira que Nora havia falsificado a assinatura do pai morto, para avalizar seu empréstimo. Ao descobrir, pela boca de Nora, que Cristina teria um lugar no banco e que ele seria demitido, ele chantageia Nora, prometendo contar tudo ao marido, caso ele fosse demitido.

Nora, em seu desespero, fala com o marido e tenta interceder em favor do seu algoz, mas Helmer é irredutível; afirmando que está mandando Krogstad embora, porque ele havia falsificado uma assinatura em documentos importantes; crime que ele achava hediondo e imperdoável e que não havia perdão ou justificativa para tal ato, mesmo ele sendo um ótimo funcionário.

Um novo encontro de Krogstad com Nora ocorre, porém, dessa vez,  Krogstad veio avisar-lhe que havia enviado uma carta endereçada a Helmer, onde expunha toda a gravidade do seu ato. Ele deixa bem claro que não estava interessado em dinheiro, mas em vingança e mesmo que Nora viesse a pagar-lhe tudo o que ainda lhe devia, não adiantava mais.

Os acontecimentos que se seguem foram tão marcantes, que só a partir daí Nora então despertou para a vida, que se descobriu mulher…

O resto, só lendo muito…

Mais um clássico da literatura universal, uma obra prima única, que nos leva a uma grande reflexão sobre o verdadeiro papel da mulher na sociedade, no casamento, no mundo…
O texto todo foi escrito em forma de peça de teatro, o que pode desagradar a alguns leitores, mas que em nenhum momento incomodou-me. Nota 10.

Alex André

A CABANA DO PAI TOMÁS – Harriet B. Stowe


A nossa história começa nos Estados Unidos, em 1852, pouco antes da Guerra da Secessão. Pai Tomás e sua família eram escravos de Arthur Shelbi, no Kentucky. A vida na fazenda de Shelbi não era das piores, se comparada com a de outros escravos de fazendas vizinhas já que ele e sua família nunca foram mau tratados ou espancados por seu dono. Mas Shelbi contrai tantas dívidas que é obrigado a vender parte de seus escravos, e entre eles está Pai Tomás.

Ao ser comprado pela família St. Clare, ele é obrigado a separar-se de sua esposa e filhos. Na nova propriedade, ele desperta o carinho da pequena Eva, filha do Sr. St. Clare. A menina torna-se um pequeno anjo na vida de Pai Tomás, trazendo um pouco de alegria para o bondoso escravo que sentia tanta saudade da sua família.

Entretanto, com a morte precoce de Eva e, posteriormente, a morte do Sr. St. Clare, sua esposa não vê outra saída que não seja vender o seu tão bondoso e prestativo escravo. E quem fica com Tomás é Simon Legree,  um alcoólatra muito conhecido pela violência com que trata seus escravos.

Tomás passa a ser surrado todos os dias, sem qualquer motivo. A violência dos castigos é tanta que acaba por…

O resto, só lendo muito…

 

Muito folclore cerca  esta obra magnífica até os dias de hoje.

  1. A autora teria escrito o livro não com intuito de conseguir a abolição da escravatura, mas apenas para conseguir dinheiro para comprar um vestido novo.
  2. O presidente Abrahan Lincoln teria acusado a autora de ser a responsável por deflagrar a Guerra da Secessão.
  3. Alguns espíritas também acreditam que a autora e seu marido eram médiuns e ela teria usado um espírito para ditar-lhe a história toda.
  4. O personagem Pai Tomás também não seria visto com bons olhos por líderes de movimentos negros, já que no livro era apenas um exemplo de humildade e submissão. 

Ganhei este livro de presente de aniversário de doze anos e posso dizer que ele me marcou para sempre. Tive consciência que o racismo é a pior chaga da humanidade e passei a sonhar com uma sociedade igualitária. Nota 9.

Alex André

DESONRADOS e outros contos – Arlindo Gonçalves


DesonradosEncontrei este livro realmente por acaso, ao garimpar novidades literárias em algumas máquinas de livros do metrô. Acredito que tenha sido um dos melhores livros que li nos últimos tempos, senão o melhor. Existe um grande paralelo entre Memórias do Subsolo, de Fiódor Dostoievisky, como  o próprio Nelson de Oliveira veio a comentar em seu prefácio. 

Os dez contos contidos nesta obra magnífica tratam de uma São Paulo que vemos todos os dias, mas que muitas vezes fechamos os olhos e tentamos esquecer: a São Paulo do mau cheiro, do metrô lotado, da sujeira, da prostituição, do álcool, das drogas, dos crimes. 

Entretanto, no meio de tanta decepção, de tanta amargura, de tanto sofrimento, ainda há espaço para a sinceridade, amizade e ternura.

São histórias de pessoas que nunca acreditam em um futuro melhor, que são desprovidas de sonhos, já que a desgraça e a tragédia foi quem sempre acompanhou-as desde muito cedo.

Há também histórias de pessoas que tiveram uma vida ótima, que eram muito felizes, porém foram visitadas pela fatalidade e tiveram suas vidas tragicamente mudadas, transformando-as em seres miseráveis, só aguardando pela morte.

A história mais marcante é a de Eva, que ao perder o pai ainda muito pequena, começou a ser violentada pelo padrasto, até criar coragem e fugir para São Paulo. Contudo, sem muita opção, Eva resolve prostituir-se e acaba contraindo AIDS. E acaba por ficar grávida, para piorar ainda mais a sua triste situação. Suas amigas de profissão aconselham-na a abortar, mas ela teima e resolve ter a criança. Em um dos seus programas, Eva foi espancada quase até a morte por dois clientes sádicos e o que eles falaram enquanto batiam nela mudou o rumo da sua vida…

Como todas as histórias são interligadas, vou ficando por aqui, para não estragar a surpresa reservada para o final.

Não poderia deixar de reproduzir um poema que faz parte do conto “Manhã Nova”:

Encerram-se as últimas luzes da tarde

Comboios nos levam a lugares que nós nunca almejávamos estar

As pessoas um dia nos receberão sorridentes

Amados um dia seremos

Então, cuspiremos na comiseração que nos tornava desonrados

Felizes, então, seremos

Quem sabe?

Quem nos guiará?

Para além do amanhã…

Quem nos guiará?

Para além da manhã nova…

Lembrando, também, que o livro todo é acompanhado por fotos em preto e branco de partes da cidade de São Paulo, como a que reproduzo abaixo. Todas têm a ver com o contexto. 

Este livro só aumentou o meu interesse em conhecer mais obras deste autor. Nota 10.

A Mulher de Trinta Anos – Honoré de Balzac


Estava com muitas saudades de todos vocês, querida Família Lendo Muito.

Trago-vos uma verdadeira obra-prima da literatura mundial: “A Mulher de Trinta Anos”, de Balzac. Espero que apreciem.

Nossa história começa  em abril de 1813, quando Júlia e seu pai acompanham o desfile das tropas do Imperador Napoleão, em frente ao Palácio das Tulherias.

Ao perceber o interesse da bela Júlia pelo coronel Vitor D’ Aiglemont, belo homem de trinta anos, forte, alto e com dotes físicos admiráveis, seu pai tenta explicar-lhe que, unindo-se com aquele homem, ela seria infeliz, visto que ele não passava de um homem rude, acostumado com o exército.

Mas mesmo contra a vontade de seu pai, ela acaba por se casar com Vitor, tornando-se por demais infeliz, já que o homem que ela admirava e queria para si, nada mais era do que um homem insensível, que não lhe dava carinho e era cheio de amantes.

Por causa da ameaça de invasão à França, por parte dos exércitos estrangeiros, Vitor confia então a segurança de sua esposa à sua tia, Marquesa de Listomeré, em Toraine. A Marquesa percebera que naquele casamento não existia amor e apieda-se da jovem, tornando-se sua confidente.

Lá, ela acaba por conhecer Artur, jovem inglês que havia se instaurado na região para curar-se de um problema pulmonar e fora proibido de sair da França, por ordens expressas de Napoleão, que havia ordenado a prisão de todos os ingleses, em retaliação à ruptura do Tratado de Amiens. Então aos poucos eles se afeiçoam um ao outro.

Mesmo após uma breve separação, eles ainda trocavam cartas e passaram a sentir um amor verdadeiro um pelo outro. Quando  Júlia começa a mostrar sinais de uma doença, Artur acaba por convencer seu marido a deixar que ele tomasse conta da saúde de sua esposa, visto que ele era um médico. A partir daí, os três passam o tempo juntos, e Júlia começa a recobrar sua saúde.

Ao saber que Vitor deixara sua jovem esposa para ir a uma caçada, Artur então  visita Júlia, com a intenção de matar-se, pois não aguentava mais ficar sem Júlia. A bela moça diz ao seu amante que tudo seria diferente se ela não fosse mãe, e que mesmo amando-o para sempre,ela não poderia abandonar seu lar, mas seria de agora em diante uma viúva com um marido vivo, ou seja, evitaria qualquer toque de seu marido, a quem se dedicaria até o fim dos dias. Os amantes são surpreendidos e Artur acaba por morrer naquela noite (não fica muito claro como).

No Castelo Saint-Lange, no final de 1820, Julia passa seus dias a esperar a morte. Entregue à uma espécie de depressão profunda, alimenta-se por obrigação e não se preocupa com Helena, sua filha. Mesmo com as visitas constantes do vigário, que estava disposto a ajudá-la a aceitar seu destino, a única coisa que lhe vem a cabeça é seu único amor.

Porém, tudo muda quando anos mais tarde ela conhece, em um baile, o jovem Conde Carlos de Vandenesse, que estava desiludido com a futilidade e mesquinhez das mulheres francesas. Ao serem apresentados, uma faísca incendiou o coração de Carlos e ele acabou por apaixonar-se pela bela senhora de trinta anos.

Júlia não esquecia seu único amor e confidenciava a Carlos que achava impossível uma pessoa amar duas vezes. Porém, aos poucos, ela acabou por apaixonar-se por aquele jovem fascinante.

Quando a felicidade parecia estar ao seu lado, ela será vitimada por uma grave tragédia, algo que iria marcar sua vida para sempre. E esta não será a única.

O resto, só lendo muito.

Balzac criou aqui de uma maneira filosófica, uma verdadeira ode ao feminismo, mas sem deixar de lado sua escola literária, o Realismo, a qual dedicou-se pela sua vida inteira. Até então, a mulher que tinha trinta anos era tida pela sociedade como apagada e sem atrativos.

Quem nunca leu nada deste autor fantástico, pode achar este livro meio sem sentido, já que ele escreveu os seis capítulos que o formam, primeiramente em forma de contos, e só depois reuniu-os em um único livro. Nota 9.

Um beijo no coração de todos.

Alex André

A Neves do Kilimanjaro e outros contos – Ernest Hemingway


Doze Histórias

NEVES DO KILIMANJARO, AS (LIVRO DE BOLSO)

 

Querida Família Lendo Muito, como vocês têm passado?

Desta vez, preparei-lhes uma resenha especial, já que Ernest Hemingway está entre os três maiores autores do século XX, ao lado de Jacky London e William Faulkner.

Para esta pequena coletânea, foram selecionados alguns dos melhores contos da época da sua juventude. Contos esses que falam sobre guerra, lutas de boxe, touradas, viagens, mas sem  nunca deixarem de lado a reflexão filosófica, política, e principalmente, humanitária das suas personagens. 

Vou destacar então dois contos, como sempre faço em resenhas deste tipo:

“As Neves do Kilimanjaro” é o conto principal desta pequena coletânea e também o mais longo do livro. Narra  a história de Harry, um escritor que encontra-se na África, com sua perna muito ferida e necessitando de cuidados especiais. Ao lado de Helen, sua esposa e enquanto aguarda um avião para socorrer-lhe no pé da montanha, ele acaba por fazer uma grande reflexão de sua vida,  de suas aventuras, de seus amores antigos, do porquê de ter fracassado como escritor. O ponto alto da história alto são as perdas de consciência de Harry que o levam a um estado de delírio, e a partir daí, ele começa então a reviver a única paixão verdadeira que teve na vida e  como abdicou dela para viajar para encontrar temas para suas histórias.

Se tiverem a oportunidade, assistam abaixo: “As neves do Kilimanjaro”, de 1952.Uma filme bem fiel ao conto, além de contar com Ava Gardner, Gregory Peck e Suzan Hayward em seu elenco.

 

Já em “A capital do Mundo”, o jovem Paco, garçom da pensão Luarca, na cidade de Madri, mantém o sonho de um dia ser um toureiro muito famoso, como aqueles que está acostumado a ver na pensão. Todavia, ao brincar de tourear com seu amigo Enrique, acaba por ser ferido mortalmente. Aqui Hemingway faz uma reflexão filosófica sobre o futuro da própria Madri, considerada um cidade muito bonita e moderna na época, mas que estava prestes a experimentar a guerra, e que já havia tido sua violência imortalizada por seus ilustres pintores do passado. 

 

Todos consideram como a obra-prima de Ernest Hemingway  o livro “Por Quem os Sinos Dobram”, escrito em 1940. Em 1954, ele recebeou o Prêmio Nobel, por seu livro “O Velho e o Mar”. Seu pai, que sofria de transtorno bipolar, suicidara-se por problemas financeiros, quando Hemingway ainda era bem jovem. O próprio Hemingway, vitimado pela mesma doença, tirou sua vida em 1961. Anos mais tarde, sua neta Margaux Hemingway, também suicidou-se por causa do transtorno bipolar.

Um livro excelente, que vale a pena ser lido com bastante calma. Pelo conjunto de todos os contos, merece uma nota 9.

Vou ficando por aqui.

Espero que tenham gostado de mais esta resenha.

Um beijo enorme no coração de cada um de vocês.

Alex André

 

 

 

A RUA DAS ILUSÕES PERDIDAS – John Steinbeck


“Cannery Row, em Monterrey, Califórnia, é um poema, um mau cheiro, um rangido, uma qualidade de luz, uma tonalidade, um hábito, uma nostalgia, um sonho.”

Nossa história começa com essa frase. Mas não é uma história qualquer, é a história sobre a vida de todos os moradores e frequentadores de Cannery Row, que não têm qualquer esperança de um futuro melhor.

É sobre a vida de Mack e seus amigos do Palace, que mesmo sendo muito  inteligentes e com grandes habilidades, preferem levar uma vida de vadiagem e pequenos golpes, mas mantendo sempre a amizade em primeiro lugar. Mesmo sendo um bando de desocupados, mostram todo o seu instinto paternal ao adotarem e deixarem a cadelinha Darling destruir o pouco que tinham, que seriam seus sapatos e botas…

Também é sobre a vida de Dora, dona de um prostíbulo que nomeara como “Restaurante Bandeira do Urso”. Ela e suas “meninas” fazem a alegria dos homens, mas também são perseguidas pelas esposas da região e muito exploradas pela prefeitura. Devem pagar o dobro de impostos e  fazer mais doações do que todos na cidade. Dora tem a educação e modos de uma dama e também trata as suas “meninas” com humanidade…

Mas, acima de tudo, é a história da vida de Doc, um cientista que trabalha e vive no laboratório de biologia de Connery Row. Doc trabalha coletando rãs e outros animais para outros institutos de pesquisas. Porém, Doc não é igual àquelas pessoas. Doc é respeitado por aquelas pessoas, pois sabe lidar e tratar com cada uma delas. 

O bando de Mack organiza uma festa de aniversário para o amigo Doc, para agradecê-lo e deixá-lo feliz. Ele convida a todos da rua para participarem da festa e cada uma daquelas pessoas sem perspectiva de um futuro melhor, se agarra na festa para homenagear a única pessoa que merece ser “diferente” de todos. Todavia, tudo desanda quando a festa não corre como o planejado e um grupo de bêbados invade a festa, pondo tudo a perder.

O resto, só lendo muto…

Neste livro, o autor não fala só da história de uma rua decadente, mas fala de filosofia da nossa própria vida e de tudo o que mais detestamos no ser humano, como é o caso de mesquinhez, egoísmo e ganância. Com certo toque de humor, ele consegue atenuar o choque da realidade de Cannery Row. 

Uma verdadeira obra-prima da literatura moderna. Steinbeck, ao contrário de Ernest Hemingway e William Faulkner, utiliza o que ficou conhecido como “o culto do simples”, já que em seus livros não existe nunca alguém para manipular nossas simpatias ou apontar-nos uma moral. Este é o seu maior sucesso literário, seguido de As Vinhas da Ira. O autor ganhou o prêmio Nobel em 1962. Um livro nota 10.

Alex André