O Apito do Trem – César Arruda Castanho

“Não é difícil ver que este “O Apito do trem” é um livro lírico. Perigosamente lírico.”

É com este aviso do prefácio de Antonio D’Elia, que inicio a minha resenha de O Apito do Trem, história magnífica, de autoria de César Arruda Castanho que eu encontrei totalmente ao acaso, em uma das trocas de livros organizada pela Prefeitura de São Paulo.

A história começa quando a família de Nestor, preocupada em não fazer barulho para que seus vizinhos não descobrissem que estavam mudando-se às escondidas, viaja de trem para uma cidade do interior, num vagão de segunda classe.

Messias,  era um simples professor estadual, que apaixonara-se por Cotinha quando ainda ambos eram muito jovens; o pai dela era major do exército e muito bem de vida. No início, ele não concordou com o casamento, pois queria algo melhor para a filha, mas acabou aceitando a ideia depois de tantas investidas do Messias.

Logo após o nascimento dos três filhos, o casal começou a mudar-se de cidade em cidade, já que como professor, Messias não ganhava muito e Cotinha insistia para que ele pedisse ajuda ao seu pai, mas ele era muito orgulhoso para submeter-se a tal coisa.

Com o passar dos anos, as contas começaram a aumentar muito e todos passaram a chamá-lo de professor caloteiro; até os filhos passaram a ouvir isso de outros moradores da cidade.

Tudo por culpa da mulher, que não tinha o mínimo senso de economia doméstica e de seu baixo salário como professor de escola publica.

Armando, o filho mais velho, puxara o avô na sua maneira ríspida de ser; vivia arrumando confusão nos bares que frequentava e Messias sempre o ameaçava de pô-lo na rua, todavia, seu pai era um covarde e jamais faria isso; ele odiava sua mãe por ser mandona e seu pai pelo simples fato dele ser pobre e não responder aos queixumes da mãe à altura.

Vítor, o filho  do meio, era ordeiro e tinha muita vontade de trabalhar e progredir na vida, só para ajudar o pai a melhorar de vida; aliás, ele ficava morrendo de pena quando sua mãe humilhava seu pai na frente dele e dos irmãos.

Já, Nestor, o caçula, era o mais inteligente de todos, aquele que vivia sempre com um livro nas mãos; além disso, o garoto era muito amoroso e benevolente, principalmente com Benedita – a negra que fora criada junta com ele, e que sofria surras constantes por parte de dona Cotinha e sempre prometia tomar veneno para livrar-se de uma vez por todas dos terríveis maus-tratos.

Cansado de ouvir a mulher reclamando da falta de dinheiro e também de ser humilhado pelos cobradores e vizinhos, Messias resolveu engolir o orgulho e pedir ajuda ao sogro; este logo tratou de mexer os pauzinhos para conseguir uma transferência para o genro, pois tinha interesse que Cotinha voltasse ao lar para tomar conta de sua mãe, já que a mesma vivia acamada, acometida por alguma doença incurável que a fazia definhar dia após dia.

Messias acreditava piamente que as coisas seriam diferentes dali para a frente, pois ele viveria em paz com sua família numa nova cidade e conseguiria ganhar dinheiro suficiente para saldar todas as dívidas deixadas para trás, e ainda poderia dar o luxo que sua esposa exigia.

Ele só não fazia ideia que viver sob os olhos constantes do sogro, faria com que sua vida fosse pior do era antes.

Apesar de Messias ter um grande papel na história, o personagem principal é seu filho Nestor, que acompanha de perto a rebeldia do irmão mais velho, a falta de sensibilidade da mãe para com seu pai, as dores da avó acamada e o drama da tia Beatriz, que encontrava-se secretamente com o dr. Lauro, um alienista (psiquiatra), a quem o major achava ainda mais pirado que os seus pacientes.

No fim do livro, há ainda um conto bem curto, de estilo gótico, intitulado “A IMPRESSIONANTE HISTÓRIA DE DONANA”, onde o narrador-personagem, após doze anos vivendo na capital de São Paulo,  retorna para o interior- mais precisamente para a Vila de Água Branca, próximo à cidade de Lençóis Paulista -, para visitar seu querido padrinho Chico Pereira.

Lá chegando, ele logo pergunta por Donana dos Cachorros, uma velha senhora com ares de feiticeira, que vivia num sítio bem retirado, na Vila da Água Branca.

A tal mulher referida era irmã de um político famoso de Lençóis e chegara naquela vila para ser professora; com o dinheiro que recebera da herança, comprou um belo sítio para ela e para o marido, onde viveram em alegria e harmonia até o dia em que seu marido morreu, vítima de um grave acidente provocado por um arreio que soltou-se de seu burro de carga e enganchou em seu ventre, estripando-o até a morte.

Após a morte dele, Donana entrou em depressão, deixando de cuidar de si mesma e do sítio, que logo ficou todo coberto de mato; também deixou de pagar os empregados, que logo a  abandonaram. Para não perder tudo, ela vendeu o sítio e ficou uma pequena casa, num restinho de terreno que sobrara.

Saía muito pouco de casa, apenas para comprar alguma coisa na vila. Foi numa dessas incursões que viu um cachorro sarnento sendo apedrejado por um grupo de garotos. Espantou as crianças apenas com sua expressão medonha e tomou nos braços o desgraçado cão, levando-o para casa.  Fez o mesmo durante vários dias, enchendo a casa de cachorros.

Na época em que o narrador havia vivido na vila, ela possuía uns trinta cães e nas noites de lua cheia, ela e seus cachorros passeavam pelos pastos; Donana entoava cantos religiosos e os vários cães a seguiam de maneira ordenada e obediente, uivando para a lua.

Alguns moradores começaram a falar que ela pegava os cães para fazer sabão e isto foi passando de boca em boca; outros diziam que ela se vestia com roupas feitas com peles de cachorros e até que comia os pobres sarnentos.  Daí saiu o apelido de Donana dos Cachorros.

Mas que fim teria levado a tal Donana e seus cachorros?

O resto, só lendo muito!

Ambas as histórias são sensacionais, dignas de receberem 5 estrelas!

Espero que vocês realmente tenham gostado.

Um xandylhão de beijos no coração de cada um de vocês!

Alex André (Xandy Xandy)

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