O diário de Helena-Parte XVII

Indecisa, Helena assentiu lentamente com a cabeça. Em resposta a isso, Robert sorriu satisfeito e sentou-se no colchão no meio da sala, gesticulando para que ela fizesse o mesmo.

Obediente, Helena se sentou ao lado dele. Além de velho, o colchão era mole e afundou um pouco com seu peso, mas ela tentou ignorar o desconforto. Robert assentiu aprovador e se levantou indo ruma a cozinha.

Ele voltou de lá com dois copos pequenos e uma garrafa de vodka aberta. Robert serviu os dois e por um tempo eles ficaram assim. Só bebendo em silêncio. Ouvindo o som suave da chuva que começara a cair, as gotas se chocando contra o vidro da janela enferrujada. Foi só depois de virar o terceiro copo que Robert começou a falar:

-Ela era igualzinha a você, sabe?

-Ela quem? – Helena perguntou, confusa.

-Os mesmos fios loiros e finos, apesar de que o cabelo dela era cacheado e mais comprido. A mesma pele branca como porcelana. Ela corava tão fácil. – Ele riu, mas era uma risada seca. – Tinha a mesma estrutura que você. Frágil. Delicada. Feminina. O seios pequenos. A boca fina. Seus olhos eram castanhos, não azuis como os seus, mas tinham o mesmo formato. Grandes. Inocentes. – O olhar de Robert ficou distante, suas pupilas negras nubladas pela dor.

-Ela quem? – Repetiu Helena, trazendo-o de volta para a realidade.

-Amélia. Eu a amava, sabe? – Robert encheu seu copo mais uma vez e se serviu de mais uma dose. – Amava demais. Muito mesmo. Nunca amei ninguém como ela. E no início ela era assim …como você. – O garoto tentou esconder, em vão, o sorriso doce e saudosista que surgira em seus lábios. – Inocente. Tímida. Confusa e triste. Jamais pusera um cigarro na boca ou assistira um pornô. – Mais uma vez ele riu. A dor naquela risada era de partir o coração. – Ela era uma alma perdida, assim como eu. Eu a apresentei ao mundo das drogas e fui seu primeiro namorado. Ela era tudo pra mim e eu era tudo pra ela. Ou ao menos assim eu pensava. Até que…

-Até que o que? – Helena sussurrou se preparando para o que ouviria a seguir.

-Amélia começou a ficar fraca. Adoecia facilmente e nunca me explicava nada quando perguntava. De repente faltar na escola virou rotina e ela já não respondia minhas mensagens ou atendia minhas ligações. Após cerca de um mês assim, fui na casa dela. Vinha adiando essa visita por saber que os pais dela me odiavam, mas não via outro jeito de descobrir o que estava acontecendo então fui. Finalmente descobri porque ela não entrava mais em contato comigo. Amélia tinha morrido. AIDS. Minha primeira reação ao saber o motivo da morte foi preocupação. Sempre usei camisinha, mas obviamente havia acontecido alguma coisa. – Ele deu um dolorido e singelo sorriso irônico. – Nem cogitei a ideia dela ter me traído até sair o resultado do exame. Acho que aquelas enfermeiras jamais viram alguém tão triste por não ter AIDS. Mesmo assim, os pais de Amélia se recusaram a me dizer aonde a haviam enterrado. Acharam que eu tinha falsificado o exame. Até hoje me culpam pela morte dela.

-Sinto muito. – Helena disse, meio desconcertada e sem saber o que deveria comentar.

-Não sinta. Eles estão certos.

-Então você… – Helena começou, confusa.

-Não. Eu não falsifiquei aquele exame imbecil. Eu não passei AIDS para Amélia. Mas isso não faz de mim menos culpado por sua morte. Se não fosse por mim, ela jamais teria conhecido esse mundo. A escuridão, os cortes, as drogas, o sexo. A dor. Eu sou um monstro, Helena, eu acebei com a vida dela de todas as formas que uma pessoa pode acabar com a vida de outra. Se não fosse por mim, ela ainda estaria viva e em casa, obedecendo seus pai superprotetores e ouvindo música clássica. Não teria cicatrizes marcando sua pele e se afastaria até mesmo de um simples copo de cerveja. Se formaria em Direito e se casaria virgem, de branco e no altar, com um cara sem qualquer tatuagem no corpo e com um corte de cabelo convencional. Eu roubei tudo isso dela . Ela era um anjo de luz e eu sou um monstro. Eu a matei.

-E então ela não seria ela mesma. – Falou Helena, incrivelmente baixo.

-O quê? – Exclamou Robert, surpreso demais para dizer algo melhor.

-Obediência, casamento perfeito…isso realmente te lembra a Amélia que você conheceu? A verdadeira Amélia? Aquela por quem você se apaixonou? Ela ao menos gostava de música clássica? Ou era católica para se casar de branco no altar? Por acaso, ela queria cursar Direito? Ela queria alguma dessas coisas, ou esses eram apenas os desejos dos pais dela? – Seu tom de voz agora se elevara, ganhando força.

-Não. Na verdade ela era wiccana. Eu até ajudava a preparar os rituais sem que os pais dela soubessem. E a gente ficava planejando nosso handfasting. E ela adorava slam metal. E o sonho dela sempre foi fazer Letras. As poesias dela eram lindas.

-Então você fez um favor a ela. Talvez ela estivesse viva se não tivesse te conhecido. Talvez não. O marido dela podia traí-la e contrair AIDS, ou vice-versa, eu não sei. Não tem como saber. Mas de uma coisa eu sei: ela não estaria feliz se não tivesse te conhecido, se estivesse vivendo os sonhos dos pais ao invés da própria vida. E digo mais: – Helena levantou o rosto de Robert para que este olhasse em seus olhos. – Se ela se parecia tanto assim comigo, aposto que ela está muito mais satisfeita morta do que estaria vivendo sob essas condições.

Os olhos de Robert brilharam como não faziam há muito tempo quando ele ouviu aquelas palavras. Os olhos de Helena eram como dois lagos de um azul cristalino. Mas ainda assim eram tão grandes, tão inocentes, que por um momento ele viu os mesmos olhos castanhos de sempre.

Depois disso, nem mesmo Robert poderia explicar o que aconteceu, o álcool zunindo em seus ouvidos e queimando em suas veias enquanto ele a beijava com um desespero jamais visto. Ela fora a primeira a dizer que ele não era culpado. Que Amélia não o odiava. E, por falar nisso, Helena era tão parecida com ela…

By Ana Beatriz

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