O diário de Helena-Parte XVI

Ao chegar no primeiro andar, Helena parou, se encostando sem jeito na parede, os braços cruzados em frente ao seu corpo tentavam transmitir a força e a determinação que ela não sentia mas precisava ter, enquanto esperava os outros chegarem, afinal, ela não sabia sequer o andar em que se encontrava o apartamento.

Taylor passou direto por ela, subindo rumo ao segundo andar sem nem mesmo vê-la. Se sentindo perdida, Helena decidiu seguí-la.

Quando finalmente a alcançou,  porta do apartamento estava escancarada e Helena não pôde deixar de se sentir tímida e deslocada ao entrar lá. O apartamento não era muito pequeno, mas incrivelmente menir e mais desarrumado do que o seu.

Logo ao entrar, no meio da sala, havia um colchão, a roupa de cama amarrotada no formato de uma bola logo acima. Atrás do colchão, um grande, porém velho, sofá de três lugares tinha o estofado rasgado e sujo. Na frente do colchão, uma televisão pequena e antiga repousava sobre uma mesa baixa demais para cumprir sua função apropriadamente.

Atrás disso tudo, Helena era capaz de ver o fogão, a pia e os armários azuis da cozinha que tinha um balcão como a única coisa que a separava da sala. De longe era possível ver a ferrugem nos eletrodomésticos.

Desviando seu olhar para a sua direita, Helena viu duas portas abertas, dentro de cada um dos cômodos uma cama de casal e roupas espalhadas pelo chão. Em um dos quartos podia-se ver Taylor. Deitada na cama de bota e tudo ela encarava fixamente o teto, os lábios pressionados em linha reta. No que estaria pensando?

Helena foi tirada de seu devaneio ao ouvir o estrondo causado pela entrada de Paxton e Amy, ainda abraçados, o sangue no braço de Amy agora estava seco.

Ignorando sua presença, o casal foi direto para o quarto que antes estava vazio e não se deu ao trabalhar de fechar a porta antes de começar a tirar a roupa. Ela virou o rosto, mas ainda era capaz de ouvir. Os gemidos. Os suspiros. Os gritos. As risadas.

  Helena apertou os punhos com força, as unhas se enterrando em sua carne. Ela não devia fazer isso. Não podia. Era errado. Não podia. Não podia. Eu te amo. O grito apaixonado de Amy foi a gota d’água.

Logo após virar a cabeça, Helena se arrependeu de sua atitude. Uma onda de náusea a dominou. E, naquele momento, o que Helena sentiu não foi nada além de nojo. Nojo de si mesma. Isso e um pouco de inveja.

Sim, pois, ao assistir os dois juntos, Helena não prestava atenção no peitoral definido de Paxton, ou mesmo nos seios redondos de Amy. Enquanto observava a sincronia dos dois corpos e ouvia as declarações de amor fervorosas, ela só era capaz de pensar em uma coisa: aquilo era o certo.

Um homem e uma juntos no auge de seu amor. Era quase como ver aquelas perfeitas famílias tradicionais juntos: o pai e a mãe casados e algumas crianças correndo. O certo. O esperado. O que ela sempre quisera. O que ela não tinha. O que ela jamais teria.

Apesar de tudo isso, Helena continuava a encará-los, não conseguia desviar o olhar. Não importava que assistir aquilo era abrir a ferida, tocar no delicado assunto que era a destruição de seus sonhos. Ela merecia aquela dor, aquela sensação de ter sua alma dilacerada. Ela merecia. Por ser daquele jeito. Errada. Repugnante. Ela merecia aquilo e muito mais.

O corpo de Helena tremia, seus joelhos pareciam quer ceder ao seu peso. A boca entreaberta em uma silenciosa súplica por redenção e perdão por ser intrinsecamente errada, uma pecadora nata. Seus olhos mostravam uma dor insuportável de se ver, quanto mais de carregar.

Os cacos do que um dia fora a bela escultura que era seu sonho a feriam intensamente quando ela se aproximava, em momentos como esses, tentando consertar. A certeza de que nada jamais voltaria a ser como antes, não importava o quanto tentasse consertar tudo, a furava e cortava de uma forma que seu canivete jamais fizera.

Desesperada, Helena finalmente se permitiu cair, os joelhos cedendo completamente no chão frio de um apartamento bagunçado e desconhecido. Suas cicatrizes queimavam, implorando pelo contato metálico da lâmina, e Helena já segurava o canivete quando Robert chegou e arrancou-o de sua mão.

-Não. Sem canivete agora. T0me um drinque comigo. – Ele fechou o canivete e jogou-o para Helena. Ao ver a hesitação no rosto da garota, acrescentou, sorrindo malicioso:-Não me diga que você não bebe! E você vai dormir na sala de qualquer forma, não tem como escapar.

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