O diário de Helena-Parte XV

Nota da autora:Sim, eu sei que vocês já devem estar mais do que cansados dos meus infindáveis pedidos de desculpa, mas…pra não perder o hábito, lá vai a explicação: primeiro eu estava em período de provas (segundo ano do Ensino Médio, sabe como é, né?)  e então, minhas férias começaram na sexta-feira. Era de se esperar que eu finalmente viesse colocar o blog em dia logo, só que viciei nos dois últimos volumes de Harry Potter, enfim…acho que todos aqui entendem a sensação de não conseguir parar de ler o livro por nada nesse mundo, não é mesmo? Bem, dadas as minhas desculpas (bem mais o menos, eu sei) vamos começar a história! Espero que gostem!

25 de maio de 2014

Paxton sorriu e, de volta ao chão, abriu sua mochila, colocando todo o seu conteúdo no chão. Cinco garrafas de vodka, inúmeros baseados, mais cigarros do que Helena seria capaz de contar, seringas, pacotes cheios de um pó branco suspeito e pílulas desconhecidas. Além disso, um isqueiro e uma colher. Após ver a expressão confusa de Helena, ele sorriu e explicou:

-As pílulas são ecstasy, o pó você coloca na colher, derrete com o isqueiro e depois injeta. Heroína. Creio que você já conheça o restante. E então… o que vai querer para iniciar sua comemoração?

Suas cicatrizes queimavam e, a despeito do ar gélido da madrugada, a garota sentia seu rosto ferver. Tirou a blusa de malha fina, ficando apenas com uma regata preta por baixo, lembrando-se que há pouco tempo tremia de frio. Prendeu o cabelo numa espécie de coque. Fora um dia longo e precisava de algo forte.

-Um pouco de vodka, por favor. – Paxton sorriu e lhe deu uma garrafa. – Eu disse um pouco.

Paxton fingiu não ouví-la enquanto entregava um beck para Amy. Diante disso, Helena deu de ombros , suspirou e começou a beber direto do gargalo. Era do tipo vagabunda, sabor laranja, e descia queimando feito cachaça. Tudo o que ela precisava.

Robert também bebia e Taylor acabara de pegar uma pílua de ecstasy. Paxton apenas fumava. Quando Helena foi ver, a garrafa já estava vazia. Sua garganta queimava como suas cicatrizes e o gosto de laranja ainda estava em sua boca. Seus olhos agora miravam o pacote com o pó branco, ainda hesitante.

Paxton riu ao notar a direção que o olhar de Helena tomava, pegou a colher, enfiou-a no pacote cheio de pó branco e entregou-a a garota, dizendo:

-Preste atenção, não vou estar ao seu lado toda vez que quiser usar, então vê se aprende.

Helena assentiu com a cabeça, tentando se concentrar enquanto ele posicionava o isqueiro estrategicamente abaixo da colher, mas o álcool não ajudava, desviando sua atenção para detalhes menos importantes e nublando sua mente.

Sendo assim, quando se deu conta, Paxton lhe entregava uma seringa cheia com um líquido branco. Fingindo que  prestava atenção em tudo, ela a segurou da forma mais firme que pôde enquanto Paxton apalpava as veias em seu braço esquerdo com uma facilidade que só um profissional teria, perturbadoramente parecido com um enfermeiro, exceto pelas roupas escuras, como uma espécie de enfermeiro do mal. Alguém que usava métodos moralmente incorretos para acabar com a dor alheia. Não poderia ser alguém tão ruim assim afinal.

Finalmente, Paxton parecia ter achado o lugar certo, sorrindo pegou a seringa da mão de Helena para injetar nela. Os olhos da garota se arregalaram, sobressaltados a princípio pela dor da picada.

Mas então ela sentiu. A droga. O líquido. Escorrendo, fluindo por seu corpo como uma injeção de ânimo. Ela se sentia mais alegre do que nunca, energia e eletricidade pareciam emanar de seu ela começou a rir loucamente.

Ela ria olhando para uma flor a sua frente, pequena e de um amarelo incrivelmente brilhante (provavelmente por causa da droga), a planta sobrevivera mesmo cercada de morte por todos os lados, meio a poeira, as pedras e as ervas daninhas. Como um sinal de esperança. Um sinal de que ela também sobreviveria. Por isso ria.

Mas então, Helena se deu conta de uma coisa: a flor era pequena porque mal passava de um broto, desabrochara há pouco. E, no entanto, já parecia fraca. Morreria logo. Daquele mês não passava.

A menina foi acometida por um terrível desespero. Talvez fosse isso afinal. Talvez fosse esse o verdadeiro sinal. Ela não sobreviveria. Era fraca demais. E juntar-se àquele grupo em nada ajudara. Na verdade, se cercar de morte de música só piorava.

Alegria e excitação intensas, seguidas por depressão e pessimismo. Eram os efeitos da droga. Numa situação normal, era isso que Helena pensaria. Mas aquela não era uma situação normal e ela só conseguia pensar na alegria proporcionada pela injeção e em como precisava daquilo. Ela não raciocinava. Apenas injetava. Mais. Mais. E mais. Até aprender o processo a ponto de não precisar mais de Paxton para aquilo. Depois de Helena descartar cinco seringas, Paxton anunciou:

-Vamos para casa, gente. Já está tarde.

Ninguém questionou sua decisão, e, apesar de ter estranhado aquilo, Helena era nova no grupo, não seria ela a única a discordar.

Paxton guardou as drogas restantes, jogando a mochila nas costas enquanto todos se levantavam. Na rua, andando até o apartamento que Helena não fazia ideia de onde ficava, nenhum deles parecia realmente são.

Paxton tinha um cigarro e um sorriso malicioso na boca, andava logo atrás de Amy, abraçando-a. Esta por sua vez ria, não, gargalhava, de algo que o garoto sussurrara em seu ouvido, sem parecer notar que deixava um rastro de sangue conforme andava, pingando dos cortes em seu pulso, abertos durante a “festa” por puro prazer. Na mão direita, o canivete brilhava em meio ás sombras da noite. Um herói. Um sobrevivente. Um salvador. Um anjo.

Paxton se inclinou para frente, beijando as cicatrizes de Amy, ainda em sangria, fazendo a garota tremer e suspirar. Um suspiro repleto de significado e quando o garoto ergueu sua cabeça, os raios da lua refletiam seu cabelo azul, mas em seus olhos havia um brilho que, Helena sabia, nada tinha a ver com o reflexo da lua. O menino lambeu os lábios manchados como o sangue de Amy vagarosamente, quase como se saboreasse um prato exótico, apreciando. Em contrapartida, a garota engasgou, surpresa e desconcertada, e seu olhar se acendeu com o mesmo brilho que iluminava os olhos de Paxton.

Alheios ao que acontecia com os dois, Taylor e Robert seguiam na frente, o olhar perdido dos sonhadores incompreendidos. Taylor tinha os olhos esbugalhados e as pupilas dilatadas, e andava feito um zumbi. Robert, por sua vez, caminhava de braços cruzados, exibindo um sorriso louco, maníaco, enquanto as tatuagens em seu pescoço eram parcamente iluminadas pela fraca luz dos postes de iluminação.

Helena sentia seu corpo em chamas, enquanto tremia descontroladamente, até enxergar um clarão, tudo branco por um instante, mas logo sua visão voltou ao normal. Um dos primeiros efeitos da heroína que injetara instante antes de sair do cemitério. Ainda estava na fase feliz. Gargalhou sem motivo. Era como se uma descarga elétrica tivesse acabado de passar por ela, Helena se sentia mais livre, calma e realizado do que nunca, e cheia de energia ainda por cima.

As risadas insanas de uma garota quebrada ecoaram pelas ruas desertas do antigo centro da maior cidade do país. Em meio à madrugada escura, até mesmo os mendigos pareciam ter sumido. Além de quatro adolescentes drogados que ela mal conhecia, a única companhia de Helena era a luz pálida da lua, seus raios prateados iluminando o caminho que deveria seguir. Seu futuro.

Helena continuou andando sem prestar atenção em nada, sem pensar em nada. Apenas seguindo. Seguindo o grupo. Seguindo os raios da lua, de um prateado tão puro, quase branco. Seguindo seu destino.

-Chegamos. – O tom de voz desinteressado de Robert a tirou de seu devaneio enquanto ele apontava para um velho prédio caindo aos pedaços do outro lado da rua.

Foi então que Helena se deu conta. Era ali que ela iria morar a partir de então. Aquele era seu futuro. Destino. A palavra queimava feito ácido em seu cérebro, venenosa, desprezível. Mortífera.

A frente do prédio estava repleta de lixo era possível ver os ratos e as baratas circulando, disputando espaço. Uma rajada de vento frio atravessou Helena, cortando-a ao meio. O que ela tinha feito? Ela sentiu seu coração apertar ao lembrar-se de seu apartamento espaçoso, sua coberta pesada e quente, e até mesmo ao lembrar-se de Vilma. O que ela tinha feito.

O desespero a dominava e Helena baixou a cabeça, assim ao menos ninguém veria o fracasso que ela era caso começasse chorar.

No chão, os cacos o que outrora fora uma garrafa refletiam seu rosto iluminado pela luz fraca de um poste de iluminação quase queimado.

Helena se viu naqueles pedaços de vidro: os olhos brilhando por causa das lágrimas represadas, o cabelo alisado todo bagunçado, as cicatrizes em seus pulsos expostas. Esgotada. Vazia. Quebrada. E transparente, era possível ler toda a sua história naqueles profundos olhos azuis. Helena era exatamente como aquela garrafa, jogada num dos lugares mais sujos da cidades.

E foi só nesse momento que Helena realmente entendeu. Aquela vida de luxo de que tanto sentia falta já não pertencia mais a ela, mas sim a outra pessoa. A uma Helena com cachos e olhos inocentes. Uma Helena que usava rosa. Uma Helena sem cicatrizes.

Ela havia mudado completamente e, não importava o quanto quisesse, não podia mudar de volta. A nova Helena tinha cabelos desarrumados e seus olhos pareciam lagos de dor. A pele da nova Helena já não era mais tão lisa. Nem seu coração tão puro. Ou sua mente tão livre de vícios.

Ela não sabia se gostava daquela transformação, mas o fato é que, certa ou não, já havia feito sua escolha, e não havia mais nada que pudesse fazer além de arcar com suas consequências. Sendo assim, Helena levantou a cabeça, engoliu o choro e atravessou a rua, entrando pelo portão que Robert segurava aberto, esperando-a, e subiu as escadas. Subiu sem hesitar, mesmo sentindo o cheiro de cigarro no carpete velho.

 By Ana Beatriz

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