O diário de Helena-Parte XII

Depois de um tempo pensando, Helena decidiu assistir uns filmes. Animações. Todos os seus preferidos da infância. E, pela primeira vez, ela não tentou parar as lágrimas que corriam livremente enquanto ela via a garotinha doce e inocente que nunca mais seria novamente.

Parou apenas para almoçar e depois voltou á sessão de filmes infantis. Eram dez da noite quando Vilma a chamou para jantar. Depois de comer, tomou um banho e ás onze já estava coma mochila nas costas, pronta para partir sem data marcada para voltar. Talvez nunca.

Helena passou em frente ao quarto da mãe. Na mesa de cabeceira, ao lado de um exemplar de Ricardo III, repousavam um bloco de notas e uma caneta azul. A garota mordia o lábio inferior, e, hesitante, pegou o bloco e a caneta. Arrancou a primeira folha e, indecisa, escreveu uma mensagem rápida e simples. Tremia, sabendo que se demorasse mais tempo acabaria desistindo.

Depois disso, já na sala, ela praticamente jogou o papel na mesa enquanto corria em direção á porta. Quando sua mãe chegasse encontraria um bilhete sobre a mesa de vidro. Eu te amo. Desculpa.

Helena não sabia ao certo porque fizera aquilo. Ou melhor dizendo, tentava se convencer de que não entendia sua motivação, de que aquela havia sido uma atitude completamente irracional e inexplicável.

O fato é que ela já estava na rua, as roupas pretas se mesclavam ao breu da noite que a cercava, os becos escuros iluminados apenas pela luz fraca de alguns postes de iluminação parcamente espalhados pela cidade.

Em meio á negritude de tudo aquilo, os olhos azuis de Helena, seus cabelos louros e a pele branco-pálida a faziam parecer-se com um anjo, quase como se tivesse uma aura divina, ou talvez fantasmagórica, caminhando na direção do cemitério abandonado.

Chegando lá, diferente da primeira vez que estivera no local, Helena não hesitou ao entrar pelos altos portões enferrujados, andando de forma automática rumo ao anjo de mármore.

E mais uma vez, a garota se sentou encostada no túmulo coberto por ervas daninhas, a mochila jogada no chão sem qualquer cuidado.Já era quase meia-noite e o frio reinava no cemitério. O vento bagunçava seus cabelos e e fazia as árvores se inclinarem, os galhos nus criando estranhas sombras no chão.

Os dentes de Helena batiam, rangiam, chocavam-se entre si e provocavam um som sinistro. Mas a garota se recusava a pegar um agasalho na mochila. O vento parecia penetrar seu corpo, como se a barreira de suas roupas fosse inexistente, e ela tremia. Dentro dela, seus ossos pareciam se chocar, quase como se não houvesse cartilagem.

E, no entanto, apesar de tudo isso, a despeito da sensação de que poderia congelar a qualquer momento, Helena ainda assim se recusava a pegar um agasalho na mochila.

Se recusava. Se recusava porque tinha esperança. Tinha esperança de que, caso se concentrasse o suficiente no frio e na dor que percorriam seus ossos e preenchiam seu corpo, talvez se esquecesse.

Talvez se esquecesse de sua mãe, sua indiferença pela filha. Talvez se esquecesse dos sorrisos falsos de Vilma. Talvez se esquecesse de toda aquela situação, de estar sentada ao lado de um túmulo, á noite e no frio, esperando se unir a um bando de góticos.

Mas não houve tempo para se esquecer. Helena ouviu o som de passos, pessoas pisando nas pedras na entrada. Eles estavam chegando.

By Ana Beatriz

 

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