O diário de Helena-Parte XI

Helena jogou o celular dentro da mochila, fechando-a rapidamente, antes que pudesse mudar de ideia. Ela jogou a bolsa num canto qualquer do quarto, no lugar mais distante possível dela. Raiva e medo se misturavam nesse gesto.

Medo de desistir. Medo de não ser forte o suficiente, boa o suficiente. Medo de fazer a coisa errada. Sim, esse era o maior. Medo de perder. Helena não queria, não, ela não podia perder. Não podia perder no jogo da vida.

Já a raiva se devia a tudo. A sua mãe, por não perceber nada que ocorria em sua vida. A Olívia por deixá-la naquele estado. Até a Vilma, por seus sorrisos falsos. Mas, sobretudo, a ela mesma. Afinal, não importava o quanto tentasse culpar alguém, no fundo ela sabia que era a única culpada. Por ser assim. Toda errada. Quebrada. Doente.

Helena sacudiu sua cabeça, se obrigando a voltar á realidade, saindo daquele mundo de dor e sofrimento apenas por saber que daquele mundo não havia volta. E precisava agir.

Ainda meio relutante e entorpecida demais para sentir qualquer coisa direito, Helena olhou fixamente a mala á sua frente, mas sem conseguir se mover. Medo, dor, solidão, ódio próprio, rejeição. A mistura fatal de todos esses sentimentos a impedia de sentir qualquer um deles realmente, mas também a tornava incapaz de tomar qualquer atitude.

E assim Helena ficou, os olhos vidrados não se desviavam da mochila, a mente presa a um torpor que tornava seu mundo nebuloso, seus pensamentos se recusavam a ser esclarecidos.

A garota abraçava seus próprios joelhos, movimentando-se lentamente, numa espécie de acalanto. A blusa e a calça se mesclavam, ambas pretas, se misturando também á escuridão do quarto. A pele clara quase não aparecia. No meio daquele breu, os fios loiros despenteados se uniam num emaranhado acima da cabeça, formando uma espécie de auréola, os pés em contato com o chão frio.

Não é possível afirmar por quanto tempo Helena ficou assim, os olhos fixos, vidrados, se balançando de um lado para o outro, quase como se toda a vida houvesse abandonado seu corpo, sem pensar em nada, a mente preenchida pela neblina do torpor denso no qual entrara.

O fato é que quando voltou a si, Helena não sabia o que fazer, era pouco mais de oito horas mas já tinha arrumado a mochila e, já que faltara na escola, não tinha mais nenhuma obrigação. Nenhuma lição de casa. Nenhuma prova para a qual estudar.

Um riso frio e seco a atravessou antes que se desse conta que ria. Aquilo era tão irônico. Sempre fora uma boa aluna, estudava muito, não tinha tempo para mais nada. Passara sua vida desejando tempo livre, e, agora que o tinha, não sabia o que fazer com ele.

Apesar de soar irônico e sem sentido, aquela era uma perfeita metáfora para a sua vida. Helena sempre tentou ser a filha que seus pais queriam. Se sentia reprimida, sem poder ser ela mesma.

No final, acabou descobrindo que não devia, não podia, não conseguia ser a filha dos sonhos de seus pais. E, no entanto, ela não sabia o que mais ser. Quando finalmente tinha uma chance real de ser ela mesma, Helena se dava conta de que não sabia. Não sabia o que era. Não sabia se gostava do que era. Não sabia o que queria para seu futuro. Sequer sabia se queria ter um futuro.

Não sabia também se estava fazendo a coisa certa. Indo para aquele lugar, se reunindo com aquelas pessoas. Talvez estivesse fazendo tudo errado. Talvez fosse estragar tudo. Mas ia tentar. Ia tentar ser ela mesma. Mesmo que não tivesse certeza do que isso significava. Ia tentar.

By Ana Beatriz

 

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