O diário de Helena – Parte X

Uma marca. Uma prova. Um desabafo. Um relato. Algo que ninguém veria. Nunca. E, se vissem, teriam a mesma a reação que Sophia. Ririam. Se afastariam. Ninguém jamais analisava, refletia, tentava entender.

Era assim com sua orientação sexual. Era assim com os cortes. Seria assim com a vida que levaria daquele momento em diante. Mas agora, ao menos estaria em grupo. Não estaria completamente sozinha. Estaria com Paxton, Robert, Amy e, ela precisava admitir, Taylor. Taylor.

A garota era dona de um sorriso realmente atrativo, além de ter um espontaneidade natural e uma simpatia louvável. Seus profundos olhos castanhos pareciam esconder um mundo de dor e privações e o cabelo era tão vermelho que combinava com as cicatrizes mais recentes marcadas em seu pulso. As cicatrizes mais recentes marcadas em seu pulso. As cicatrizes de sua história, seu passado.

Sim, pois, assim como para todos os outros naquele cemitério, para Taylor o cérebro não era o suficiente para carregar tantas marcas, era preciso:cortes, tatuagens, piercings, cabelos e roupas. Apenas a mente não era o suficiente para eles. Assim como eles também não eram o suficiente. Para ninguém. Para nada.

A cabeça de Helena já rodava antes mesmo da lâmina romper sua lâmina. A libertação. O sangue. A clareza com que começava a entender as coisas, e a confusão ao mesmo tempo. A dor, a saudade, a culpa, e, sobretudo, o medo, que fluíam com seu sangue. Os gritos de seus demônios morrendo com o canivete, ela quase conseguia ouvir. A sensação era indescritível. Sublime. Quase celestial.

No fim sua mente se anuviara. Seus problemas pareciam momentaneamente encerrados. Uma calma estonteante se apossara dela, ela não se preocupava em estacar o sangue enquanto arrumava a mochila com roupas pretas, alguma comida e, é claro, o canivete.

Foi então que Helena se deparou com seu celular e o encarou perguntando-se se deveria levá-lo ou não. Por fim, decidiu levá-lo, afinal caso precisasse de dinheiro poderia vendê-lo.

Ao menos ela procurou se convencer de que esse era seu único motivo para não largar o celular naquele apartamento. Abandonado. Sem oferecer pista alguma de sua localização. Mas a verdade era que Helena queria ver a reação de sua mãe. Se iria procurá-la. Se ligaria para ele. Se ao menos notaria sua ausência.

By Ana Beatriz

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