O diário de Helena-Parte IX

24 de maio de 2014

Helena acordou de forma relutante, Imaginary do Evanescence tocava em seu celular, indicando que era hora de levantar e começar a se arrumar para a escola.

Ela não queria. Não queria aturar o longo dia que teria pela frente, não queria ver os olhares atravessados que todos a lançariam na escola, não queria assistir a vitória de Sophia, a qual certamente estaria estampando um arrogante sorriso de superioridade no rosto. Não queria. Não queria pensar mais nos nove anos que lhe faltavam para poder ser finalmente ela mesma. Não queria mais se esconder. Não queria.

Queria dormir e nunca mais acordar. Deixar a escuridão envolvê-la como uma velha amiga. Dormir até que estivesse com vinte e cinco anos, sua sexualidade assumida, sua independência plena, seus problemas resolvidos.

Mas não podia. Precisava ir para a escola, enfrentar tudo aquilo. Ao menos foi isso o que pensou antes de se lembrar das palavras de Robert. Sem escola. Um dia a mais não faria diferença neste caso.

Sem escola e sem casa, relembrou Helena. Onde será que viviam? Como eram suas vidas? De que jeito conseguiam dinheiro? O que precisavam fazer para sobreviver?

O som de guitarra e a voz perfeita da Amy Lee a tiraram de seu devaneio, trazendo-a de volta para a realidade. O alarme ainda soava. Num gesto nervoso, ela o desligou sem parar para pensar.

Tomando sua decisão, Helena se enfiou novamente em baixo de suas cobertas, e, se forças a não pensar no que faria com sua vida naquela noite, caiu no seu tão amado sono do esquecimento.

Mas até mesmo isso não conseguia fazê-la esquecer, gerando sonhos confusos envolvendo os amigos que conhecera no cemitério. Amigos? Helena se surpreendeu ao ver que o uso daquela palavra de fato fazia sentido com tais pessoas.

Seus sonhos haviam sido uma estranha mistura de roupas, piercings, tatuagens, corpos, olhos, bocas, cabelos. A vermelhidão do cabelo de Taylor destacava os olhos claros de Amy, que iluminavam a mão de Paxton segurando um beck, cuja fumaça subia na direção da tatuagem abstrata no pescoço de Robert. E atrás disso tudo, formando um pano de fundo, no mínimo, original, uma versão transparente do rosto de Taylor preenchia o cemitério, os convidativos e profundos olhos castanhos, juntamente com seu carinhoso sorriso cintilante, pareciam dar mais vida ao cemitério abandonado.

Helena despertou, assustada e ainda com um certo sorriso brilhante na mente, com o som de fortes batidas na porta. Ainda desorientada pelo sono, ela respondeu:

-Pode entrar.

Uma cabeça morena coberta por uma massa de cachos castanhos presos em um obediente coque se esgueirou para dentro do quarto, hesitante, indecisa.

Era Vilma, Helena logo se deu conta, sua mãe era alta, branca, tinha deslumbrantes cabelos loiros e ondulados…sua única imperfeição visível era o nariz desproporcional e fino.

Além do mais, Patrícia jamais perderia sua natural pose confiante entrando de forma tão insegura. E, Helena se voltou para o relógio digital em sua cabeceira, já passava das seis da manhã, a essa hora sua mãe estaria em seu consultório atendendo algum problemático.

Vilma finalmente entrou, com os olhos baixos, tímida. Se voltou para Helena, e era possível ver o medo de errar em seus olhos castanhos como os de Taylor. Preocupada, a empregada questionou:

-A senhorita não vai para a escola hoje?

-Não Vilma, hoje não. Hoje não.-Sua voz era gentil, pacífica.

-Mas sua mãe não vai brigar comigo, vai?

-Não, não vai.

-E com você? Ela não vai brigar com você, vai?-A despeito do fato de que sua mãe sempre estivera ausente demais para brigar com ela por qualquer coisa, a pobre mulher parecia considerar seriamente tal possibilidade. Mais do que isso: ela parecia preocupada de verdade.

Foi então que, não se sabe pelos olhos de Vilma lhe lembrarem os de Taylor, ou porque ela estivera mais presente e parecia se importar mais com sua vida do que a própria mãe, ou simplesmente por ser a única pessoa de quem Helena se despediria decentemente, mas Helena beijou de leve a face da empregada, dizendo, sem conseguir espantar sua tristeza:

-Não, Vilma. Ela não vai brigar comigo.

Sem saber ao certo o que fazer diante daquela inesperada demonstração de afeto, a mulher baixou a cabeça, corada, e se retirou. Helena se jogou de costas na cama, fechando os olhos com força.

Depois de um tempo assim a garota desistiu de dormir e abriu os olhos, piscando muito e de forma implacável. Helena se levantou, se trocou e foi tomar seu café da manhã.

Helena sentia o frio do piso sob seus pés descalços e o vento que entrava pela janela atravessava a malha preta e fina que vestia sem encontrar dificuldade alguma. Os rasgos artificiais em sua calça também não ajudavam em nada a aquecer seu corpo delgado.

Ela podia muito bem ter pego um agasalho. Mas não o fez. Não o fez pois acabara de perceber que começava a gostar do frio. O frio a preenchia assim como a solidão, dessa forma ela podia fingir que tremia pelo frio externo e não pela sensação gélida e solitária que corroía seu corpo. Não era verdade. Mas ás vezes era bom se iludir.

Sobre a mesa de vidro repousavam uma maçã, um misto quente e um copo de suco de laranja. Sentada á mesa, Helena abocanhou sua maçã, faminta, como se aquela fosse a última vez que teria um café decente. Talvez fosse. Quem sabia o que ela passaria vivendo com aqueles garotos?

Enquanto comia, Helena observava o apartamento. Quase todos os móveis eram brancos, neutros. Sem vida. Talvez a parte mais triste de sua partida era o fato de que Helena não levaria boas lembranças daquele lugar.

Fazia pouco mais de um ano que se mudara com sua mãe, logo após o divórcio dos pais. Desde então, sua mãe se enfiara ainda mais no trabalho esquecendo-se de tudo o mais que havia na vida. Inclusive da filha.

Helena entendia o motivo da separação e até mesmo apoiara a mãe. O fato de seu pai não aceitar que a esposa ganhasse mais era pura estupidez. Mas a verdade era que os dois ainda se amavam. E a solução que sua mãe arranjara para esquecê-lo fora essa: trabalho.

Saindo de seu devaneio, Helena voltou á realidade e terminou de comer. Vilma parecia ter sumido, então ela mesma carregou os pratos de volta para a cozinha, onde também não a encontrou.

Depois de escovar os dentes, ela se dirigiu novamente para o quarto que em nada se parecia com ela, passara-se um ano e, no entanto, seu quarto permanecia intocado. As paredes brancas só não refletiam a ofuscante luz do sol com sua desconcertante pureza porque a janela estava fechada.

Escuro, o quarto jamais refletira tanto seu estado de espírito em um ano inteiro. Pela primeira vez, sua alma parecia confortável ali. Sendo assim, Helena não abriu a janela nem acendeu a luz, sem movendo mais pelo tato que pela visão, a fresta de luz vinda debaixo da porta trancada era a única iluminação que tinha.

Como em seu coração, a luz era ínfima, apenas o mínimo necessário para continuar a viver, uma esperança fraca, porém teimosa, lutando contra todas as sombras pesadas que a envolviam, gélidas, sedentas por sua alma, sua vida.

Muitas foram as vezes nas quais Helena pensara em desistir, relaxar apenas, se deixar ser engolida pelas brumas escuras que a cobriam para nunca mais voltar.

E a única coisa que a impedia de fazê-lo era ela. Aquela luz parca que entrava sem ser convidada. Aquela esperança tola que se alimentava de nada e ainda assim sobrevivia. Nascida sem razão, motivo ou explicação. Vinda do desespero, ela era única a mantê-la de pé, lutando. Mesmo quando só haviam motivos para cair.

Mas haviam momentos nos quais, por mais que lutasse, por mais que nadasse contra a corrente, por mais que tentasse controlar, a escuridão vencia a luz. Assim como, em certos dias, a neblina encobria o sol, impedindo a passagem de seus raios de luz. Era nesses dias que o canivete entrava, que os pulsos ardiam e as cicatrizes vermelhas eram deixadas, marcas eternas em sua pele clara.

E quando, tentando arrumar suas coisas ás cegas, Helena sentiu o inconfundível frio que a percorria ao tocar no gélido metal do canivete, Helena se perguntou se aquele seria um daqueles dias. Se naquele dia mais uma marca de sua fraqueza, que ela se esforçava tanto para esconder, se fixaria em sua pele para todo o sempre.

By Ana Beatriz

 

 

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