O diário de Helena-Parte V

23 de maio de 2014

Há um ano atrás, Helena podia até não ter percebido a reação dos outros colegas a ela após tal acontecimento, mas agora ela percebia. Com o tempo, todos a excluíram, afinal, seus amigos eram os amigos de Olívia, e tudo só piorou quando passou a exibir como realmente se sentia vestindo-se de preto e ouvindo rock, em especial gótico. Rumores sobre as suspeitas de que se cortava corriam pela escola e todos sabiam sobre sua opção sexual e antiga paixão por Olívia.

O resultado foi que mais uma vez ela não tivera dupla para o trabalho de química, e mais uma vez a professora precisara escolher seu par. Dessa vezz Helena havia ficado com Sophia, uma das garotas mais populares da sua sala, que passara a aula irritadiça por ter sido separada de suas amigas.

Toca o sinal. Terminada a experiência, a professora mandou todos lavarem seus béqueres. Já dentro do banheiro, Sophia perguntou, olhando fixamente para os pulsos de Helena:

-Você lava, né? Quer dizer, eu realmente não sei o que é esse líquido aí dentro e fiz minhas unhas ontem!-Helena fizera tudo sozinha, tornando o trabalho em dupla ainda mais ridículo.

Entendendo a ideia da garota, Helena ia abrir a torneira sem fazer um gesto sequer que sugerisse que levantaria as mangas do moletom, quando a menina falou, nervosa:

-Você não vai levantar as mangas? Assim vai molhar!

-Tudo bem. Não me importo.-Helena proclamou o mantra que repetia para si mesma todos os dias para continuar a viver.

-Levanta a manga!-A garota persistia, realmente nervosa agora.-Eu não fiz esse trabalho com você para não ganhar nada em troca.-Ela destilava veneno e nojo ao pronunciar a palavra “você”.

-Não. Eu não vou levantar. E você nem fez nada no trabalho. Mal nos falamos.-Respondeu Helena, instantaneamente na defensiva.

Mas por mais defensiva que Helena ficasse, ela jamais esperaria por aquilo. Tudo aconteceu rápido demais para que ela pudesse processar o que estava acontecendo e e impedí-la ao mesmo tempo.

-Quando se deu conta, Sophia gritava gloriosamente que sempre soubera. Os pulsos marcados. As cicatrizes vermelhas se chocando de maneira confusa, como os cacos de vidro caídos de uma janela estraçalhada. A garota puxara as mangas da blusa sem sua permissão.

Helena tremia de raiva, seus olhos queimando como se estivessem em carne viva pelas lágrimas que ela simplesmente não deixaria cair. Mas, no entanto, tudo o que ela fez foi abrir a torneira e lavar o béquer da forma mais controlada que pôde, reunindo toda a sua frieza. Não importava o quão descontrolada, quebrada ou perdida ela se sentia, não iria explodir, chorar, gritar. Não daria aquele prazer a Sophia.

Dirigiu-se de volta para o laboratório a passos firmes, esforçando-se para se acalmar e não correr. A distância entre o banheiro e o laboratório nunca lhe parecera tão grande, mas enfim ela chegou lá e, para comprovar que mesmo após anos de treino ainda era horrível em esconder suas emoções, a professora perguntou, atenciosa:

-Está tudo bem, Helena? O que foi que aconteceu?

-Nada. Estou bem.-Respondeu rapidamente, dando-lhe as costas para que a professora não tivesse a chance de ver a culpa da mentira em seus olhos.

-Até amanhã então.-Acrescentou incerta a pobre e dedicada educadora.

Helena não lhe respondeu, saindo de lá o mais depressa possível e já ouvindo Sophia contar sua  versão da história. Até o dia seguinte a fofoca já teria chegado no maternal.

Fora do laboratório, notou que não havia mais ninguém nos corredores, se permitindo correr de volta para a sala. Lá só pegou sua mochila, agradeceu por esta ter sido a última aula e saiu o mais depressa que pôde daquela escola.

E então, perdida, se viu vagando sem rumo pelas ruas da selva de pedra na qual aprendera a viver. Ou melhor dizendo, a sobreviver. A verdade é que ela não queria voltar para casa. Não queria encarar Vilma, a empregada, com um sorriso falso no rosto enquanto esta dizia que mais uma vez sua mãe não viria almoçar em casa porque estava trabalhando.

Por outro lado, não pretendia ficar zanzando pelo centro comercial que ficava próximo á escola, sabia que não conseguiria dar um passo naquele lugar sem trombar com outro aluno. Talvez até mesmo uma das amigas de Sophia. E se tinha algo que ela definitivamente não precisava, com certeza era isso.

Sendo assim, Helena decidiu andar sem rumo na direção oposta ao centro comercial. Mas mesmo assim sempre acabava encontrando um ou outro colega de seu colégio.

Finalmente Helena encontrou um lugar sem ninguém que conhecesse. Na verdade, sem ninguém mesmo. Com aparência de abandono, Helena imediatamente se identificou com o lugar, pensando que era o melhor local possível para ficar sozinha.

Era cercado por grandes muros brancos, porém pichados, os altos portões já abertos lhe pareciam enferrujados. Hesitante, Helena tentava não fazer muito barulho, mesmo pisando nas pedras brancas que haviam na entrada.

No final, Helena descobriu aonde estava. Sem os devidos cuidados, a grama alta cobria alguns dos túmulos mais baixos, mas, ainda assim, com certeza era isso. Um cemitério. Um cemitério abandonado.

Um pouco surpresa, ela refletiu que mesmo sem ter tal objetivo acabara num lugar adequado para o seu estado de espírito atual.

Helena sempre tivera uma certa atração por cemitérios, parte de seu lado gótico que sempre escondera e agora apenas começava a liberar. Desde pequena os achava bonitos, uma pequena cidade, silenciosa, com sua pureza fria, anjos protetores e coroas de flores enfeitando. Os mausoléus como casas e as cruzes como em igrejas.

No início, Helena apenas vagou pelo cemitério sem um destino certo, até que viu algo que lhe chamou a atenção. Após uma inclinada subida, era possível avistar uma estátua de Raziel sobre um túmulo coberto de ervas daninhas.

A estátua, no entanto, permanecia magicamente intacta. O anjo segurava uma espada em uma mão e um cálice detalhadamente esculpido na outra. Suas enormes asas gloriosamente abertas, dando a impressão de que ele estava pronto para a luta.

Vendo ali seu local ideal para ficar, Helena para lá se dirigiu, curiosa, ignorando a íngreme subida e o fato de que era este o último túmulo do cemitério.

Após algum tempo, Helena enfim chegou ao túmulo e sentou-se encostada nele, a mochila jogada no chão. Por um momento pensou que fosse desabar. Sem ninguém por peto, encostada no gélido mármore do túmulo, Helena queria chorar mas não conseguia. Talvez seja verdade o que dizem afinal. Talvez se perca a capacidade de chorar após tanto tempo tentando se controlar.

Helena tremia, não por frio, mas pelo medo causado por não saber se isso era bom ou não. Foi então  que, repentinamente, ela ouviu o som de passos se aproximando.

Continua…

By Ana Beatriz

 

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2 comentários sobre “O diário de Helena-Parte V

  1. A Helena é mais uma garota como qualquer outra qualquer, que por ser diferente, acaba por ser discriminada e excluída do grupo de alunos. Muitos vão identificar-se com a sua personagem.
    Um grande beijo e um ótimo final de semana, irmãzinha querida.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Essa era exatamente a ideia que eu queria transmitir, porque muitas pessoas passam pela mesma situação apenas por serem diferentes. Espero que as pessoas de fato gostem dela, e quem sabe até se identifiquem . Obrigada! Um ótimo final de semana para você também!Beijos 🙂

    Curtido por 1 pessoa

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