O diário de Helena-Parte III

Helena repousou o canivete fechado na cuba e e abriu a torneira, lavando os pulsos, as cicatrizes ardiam, purificando e queimando, tal qual a água benta faz com os demônios, cauterizando.

E assim ficou por um tempo indefinido, aproveitando a sensação,a água gelada, fria como a solidão que a preenchia. Até que decidiu desligar a torneira e limpar os ferimentos, esperando que o sangramento estancasse, mas esse só fazia aumentar.

Helena pegou mais papel higiênico e repetiu o gesto, no entanto, o efeito era sempre o mesmo e ela só não entrou em desespero por se sentir incrivelmente mais calma após os cortes, os pensamentos mais claros.

Por fim, acabou jogando fora todos os papéis utilizados e puxou a amanga de sua camisa para baixo novamente, cobrindo as cicatrizes e se forçando a a ignorar o sangue.

Pegou o canivete da cuba, guardando-o no bolso da calça, abriu a porta do banheiro e saiu, dirigindo-se ao seu quarto. Chegando lá, Helena se viu parada na porta, piscando forte ao encarar o cômodo.

Por quê diabos seu quarto era branco mesmo? Ela sempre detestara branco, e odiava cada vez mais! Ah, é mesmo, sua mãe prometera pintar o quarto, mas nunca o fizera realmente! “Que surpresa”, pensou Helena, amarga, revirando os olhos consigo mesma.

Correndo os olhos pelo quarto, Helena finalmente achou um canto escuro no quarto, encoberto pela sombra projetada pela ofuscante luz do sol que entrava pela janela aberta.

Sem pensar duas vezes, Helena se dirigiu àquele canto, tentando desviar a vista de toda aquela luminosidade. Há muito tempo deixara de acreditar na luz, entendendo que seu lugar era o mesmo que o dos ratos e monstros: o escuro.

No escuro ela se encontrava, se entendia melhor. O espaço com sombra se tornara menor, fazendo com que Helena encolhesse suas pernas, até que encostasse os joelhos no tronco, encolhida, a cabeça repousada entre as pernas, esquivando-se da luz como um vampiro.

Um vampiro. Era assim que Helena se sentia. Um morto que fingia viver. E esse pensamento a fez esconder ainda mais sua cabeça, sufocando os soluços. E por alguns instantes Helena foi isso: um monte encolhido na parte mais escura do cômodo, as calças artificialmente rasgadas unidas á camisa de mangas compridas que ocultava os pulsos com suas marcas e logo abaixo um par de coturnos, tudo preto, mesclando-se á escuridão, exceto por uma confusão de fios loiros que pairava sobre um corpo tremendo de soluços abafados e desesperados. Tudo aquilo á margem de seu brilhante quarto branco perfeitamente iluminado pelo sol. Uma intrusa no próprio quarto. Uma intrusa na família. Intrusa na escola. Na sociedade. Uma intrusa no mundo.

E por mais que tentasse esconder, qualquer um que entrasse na casa naquele momento poderia ouvir seu desabafo em forma de soluços e lágrimas. Mas ninguém ouviu. Ninguém ouviu porque não havia ninguém para ouvir. Helena estava sozinha. Completamente sozinha.

By Ana Beatriz

 

 

 

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