O diário de Helena – Parte II

Inexperiente, a garota simplesmente forçou a lâmina contra seu frágil pulso, pressionando, sem sucesso, a pele que, apesar de fina, no momento lhe parecia tão grossa. Não sabia ao certo o que fazer, como exatamente deveria se cortar.

Ela repetiu o gesto mais algumas vezes, cada vez com mais força, mas era inútil. Foi então que, de forma irritadiça e impaciente, Helena usou o canivete como um serrote, movendo-o de um lado para o outro, atravessando o pulso com as linhas tortas, distorcidas e supérfluas  deixadas pela lâmina.

O fazia porque estava desesperada, necessitada. Precisava se cortar naquele dia.Não podia deixar a oportunidade passar e correr o risco de perder a coragem. Lágrimas contidas ardiam por trás de seus olhos, causadas pelo desespero que sentia. Foi então que ela sentiu.

A lâmina rasgara a pele, indo cada vez mais fundo, dentro, deslizando. Helena entendeu que conseguira, havia se cortado e por mais que sua razão lhe dissesse que apenas seu corpo se machucava, a enxurrada de hormônios que acabara de liberar a impedia de racionalizar, mesmo se ela quisesse. E ela não queria.

Sendo assim, Helena sentia que sua própria alma, mais fria e escura que o Érebo, era dilacerada. E aquilo era bom.

Afinal ela era má, esse devia ser o único motivo por ninguém jamais amá-la, por ser daquele jeito. Toda errada. Doente. Um monstro. Dessa forma, ao dilacerar sua alma, matava aos poucos um enorme e resistente monstro.

Helena era como um daqueles anjos vingadores, cuja única função era matar demônios. Até porque, Helena não passava disto, um anjo, que caíra por amar quem jamais estaria ao seu alcance. Porém, os tais demônios estavam dentro dela, de uma maneira que ao exercer sua função, ao fazer o certo, o que fora programada para fazer, se matava lentamente.

Quando abriu os olhos, notou o sangue escorrendo contra sua pele perfeitamente branca, como o primeiro respingo de tinta numa tela em branco, o nascimento de uma arte psicopata, a primeira prova de vida. Sim, pois, ironicamente, um gesto considerado suicida a fizera sentir-se mais viva do que nunca em meses. Seria engraçado se isso não machucasse mais do que a própria lâmina do canivete.

Alguns dizem que, na verdade, o sangue é vinho. Mas aos seus olhos o sangue era perfeitamente vermelho. Vermelho como o amor. Fazia sentido. Afinal, o que era o amor, se não sangue, dor, e, sobretudo, uma longa e rápida queda direta dos céus até o chão?

O único motivo que levava alguém a amar era a busca por aquele prazer sublime do voo. A questão era: valia pena? Valia a pena a dor da queda certa apenas pelo prazer momentâneo? Não. Mas o fato é que sempre acreditamos, bobamente, que conseguiremos nos manter no ar. Por toda a eternidade.

Aquilo sempre acontecia, mas o fato é que Helena já caíra tantas e tantas vezes que, mesmo que aquela estúpida esperança voltasse a aparecer, não sabia se conseguiria consertar suas asas para novamente voar. Desta vez ela subira demais no ar antes de cair. Sendo assim, a queda foi dura demais.

Um filete de sangue continuava a escorrer, numa linha quase reta, em direção ao cabo do canivete, como se quisesse manchar o causador de tal desgraça.

Porém, Helena não percebia isso, ainda perdida em seu mundo masoquista refletia sobre a linha tênue que existia entre a dor e o prazer e sobre o prazer de trocar a dor interna pela externa, esquecendo seus problemas.

Finalmente, fechou o canivete, sem ver que o vermelho de sue sangue se misturava aos chamativos cabelos da sereia. Se seu cabelo liso simbolizava o fim de sua infância, aquela mancha de sangue marcava o fim de uma vida isenta de vícios. Mas sabia ela aonde estava se metendo. Afinal, aquela era apenas a mancha inicial.

Continua…

By Ana Beatriz.

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10 comentários sobre “O diário de Helena – Parte II

  1. Muito obrigada, eu realmente fico feliz que tenha gostado, Nath! Espero que continue gostando, né? Kk
    Aliás, eu fiquei sabendo que está meio doente, eu realmente sinto muito, e espero que melhore logo!
    Beijos 🙂

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  2. Muito obrigada! Fico feliz que tenha gostado! Quanto a sua história, só li o primeiro capítulo até agora, mas eu simplesmente amei e pretendo acompanhar com certeza! Você escreve muito bem, sério, meus parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

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