Minha História

Sou de São Paulo e quase morri no parto, ao nascer. Minha mãe me disse que eu era o bebê mais feio que havia nascido na maternidade, mas que me tornei muito bonito quando de lá saí. Fui morar em Guarulhos, em um conjunto habitacional que tinha inúmeras crianças da mesma idade que a minha, mas que não tinha uma única quadra ou um playground. Não podíamos andar de bicicleta ou jogar bola, sob pena de multa para nossos pais ou que os guardas tomassem nossas bolas.

Desde pequeno, já dava para notar que eu era diferente de outras crianças, pois era mais sensível e mais nervoso. Ninguém queria brincar comigo e eu me metia em muitas brigas a ponto de minha mãe ter que se mudar para uma casa em Atibaia, em um lugar bem retirado para que eu pudesse criar animais e ter alguns amigos.

Mais tarde, mudamos para Curitiba e numa festa de São João, na sétima série, quando eu já estava esperando meus pais para voltar para casa, um rapaz de 17 anos invadiu a escola e jogou uma bomba caseira e caiu bem no meu colo. A bomba me deixou tão desfigurado naquele momento, que não fui reconhecido por uma professora que me dava aula. Mas o momento mais triste, foi quando achavam que eu perderia a visão e vi meus pais conversando com o médico para eles serem meus doadores de córnea. Graças a Deus não precisei de transplante e meu cirurgião plástico, Dr. Nelson Takaki, fez um trabalho brilhante e não fiquei com nenhuma cicatriz no rosto e apenas uma linha mínima perto da barriga.

Quando fui estudar Artes Gráficas no Senai, anos depois, fui vítima de bullying, por ser diferente dos outros. Era agredido sempre, até que tive a coragem de enfrentar e me impor. Aí, ganhei o respeito dos outros e parei de ser perseguido. Após me formar trabalhei em Jornais, Agências de Publicidade e Laboratórios Farmacêuticos.

Daí, resolvi montar um estúdio de criação. Tudo ia bem, mas eu já não dormia quase nada e só queria saber de obter minha independência financeira o mais rápido possível. Devido a uma crise no mercado publicitário fui obrigado a trabalhar em um banco durante o dia, para ajudar nas despesas. Não gostava do emprego, mas tratava a todos com muito carinho e respeito e era amado pelos clientes.

Comecei a ter desmaios e ninguém sabia o que provocava-os. Machuquei várias vezes minhas costas, fui internado e não achavam o que era. Uns diziam que era epilepsia, outros catalepsia e fui medicado para os dois. Até que surgiu o Transtorno Bipolar em minha vida. Achei que tudo tinha acabado, tentei suicídio, fui internado, tive que fechar a agência e me afastar do banco. Passei por um processo de “despersonalização”, que é quando você não sabe mais quem você é, se isso é causado pela doença, pelos remédios ou é algum processo natural seu mesmo.

Com ajuda da Dra Andreza Olivares e depois da Dra. Cristiana Paraventi, que está comigo há quase oito anos, comecei meu caminho de reencontro. É um caminho árduo, às vezes com derrotas, mas também com muitas vitórias. Aos poucos, minha vida tem voltado ao normal. Minha sensibilidade aflorou ao extremo, pois choro em filmes dramáticos (o que eu achava absurdo), me emociono por qualquer coisa. Procuro preencher o meu tempo sempre, seja com Terapia Ocupacional, seja com atividades me distraiam, como Palavras Cruzadas, Gastronomia, Trabalhos Manuais e agora o blog.

Quero deixar bem claro para todos que Transtorno Bipolar não é o fim do túnel pra ninguém. Não precisam se envergonhar de ter Transtorno Bipolar, não precisam se esconder porque sofrem de Transtorno Bipolar, porque isso não é nenhum crime. Ninguém pediu isso, ninguém é culpado disso. Se cuidarem, podem ter uma vida normal, podem fazer o que quiserem, podem ter até um blog como eu.

Espero que daqui para a frente, ao lerem a minha história, todos vejam que os bipolares são pessoas iguais às normais, só que mais sensíveis e que precisam de alguns cuidados especiais.

Alex André

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25 comentários sobre “Minha História

  1. Você é um cara muito corajoso Alê. Graças ao preconceito, muitas vezes da própria pessoa, tanto a bipolaridade quanto outros males que afetam a humanidade, são tratados de forma cruel. Espero sinceramente que seu depoimento, essa carta à coragem, atinja àqueles que mais precisam. Não me refiro só aos que se escondem, mas principalmente, aos que não entendem.
    Beijo grande

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  2. As vezes passamos por tantas coisas e as pessoas não sabe nem um terço, até que isso seja contado pela própia pessoa. E nossa, a sua história nos mostra que pra viver, basta querer, nada impede! Obrigada por dividir conosco a sua vida, você é uma pessoa querida que tem um talento enorme. Tenho certeza que com esse seu texto vai ajudar muita gente que acha que tudo é o fim do mundo. Que sua vida seja repleta de felicidades! Um beijão.

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  3. É Alex o que posso dizer, bem vindo ao grupo, rsss. Tenho observado que as pessoas assim como eu, você e tantas outras além de outros problemas apontam para o maldito bullying, a coisa mais idiota que uma pessoa pode fazer a outra. Muitos gostam de afirmar que só recebe bullying quem se deixa. Eu penso, tolice, é o mesmo que dizer que só é estuprado quem assim se permite. Acredito que tudo que venha a somar na melhora de um trauma é valido indiferente se leva nome de transtorno ou déficit. Percebo também que quanto mais maltratada na vida uma pessoa é, passando por provações e por privações, mais ela pode desenvolver um talento de ajudar, de mostrar a todos que o mundo pode ser melhor, afinal vivemos e pisamos no mesmo chão, deveríamos agora pensar em acabar com as fronteiras e queimar todas as bandeiras, somos humanos, nada mais que isso. Obrigado pela partilha. Em minha página também falo muito sobre isso. Abração mano! 🙂

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  4. Que história, hein?Uma ótima história de superação para as pessoas (independente de como elas forem) se aceitaram melhor e pararem de julgar aos outros sem nem ao menos conhecer.Fico feliz que tenha superado tudo isso, meus parabéns, você é um guerreiro por ter conseguido tudo isso.
    Beijo.

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  5. Ale, também estou na luta e melhorando aos poucos…
    Mas é a primeira vez que me deparo com alguém que está passando pela mesma coisa que eu, seu texto me ajudou a entender que nem tudo é uma “queda emocional” e que um dia isso vai passar,pois no rio da vida tudo passa.
    Abraços.

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